quinta-feira, 4 de junho de 2020

Guardião do espelho

O plural que era o homem sentinela, era sentido há quilômetros de si. O homem atravessado, atravessava quantas fossem as ruas necessárias pra encontrar o que precisasse ser curado em ti. Daí a confusão. Ele era espaçado, desatento e honesto. Via tudo e não sabia sentir, engolia sozinho o que não era só pra si. Daí a solidão. Pensava que os hiatos eram pregos, que fixavam-se sem pretensão de largar. Quisera ele soubesse, que tudo era pouco e que o pouco era muito, se quisesse  ler estrelas. Sorria impaciente e pensava incomodar, porque se incomodava. Mas o homem multiplicado era farol e não ilha inóspita. Talvez por isso, todas as vértices de suas certezas pareciam carregadas dispersas, pra formar juntas a sua estirpe de realeza. O que lhe havia de nobre morava em seu pouco, em sua habilidade em não alimentar excessos. Não que fosse de equilíbrio, porque nem o era, nem o queria ser. Mas a sua existência era prumo. Sem ela, não soariam os sinos, nem nasceriam os rios, nem cresceriam os limos, nem uniriam-se as cores. 
Sem a sua existência, não haveria calor, nem saudade, nem utopia, menos ainda realidade, menos ainda o amor, o genuíno amor.
A sua múltipla existência era o que enraizava a cicatriz, essa e outras, todas as tantas que já não se podia ver. Era de suas falas que vinha a chama, são de suas luas que vem a cigana. Que são reflexos de outono, que vem das águas etéreas. 
O homem do mundo é antes de ti, antes de mim, antes de nós e nunca de ninguém, além de seu próprio.