quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Mulheres de areia

 Nós, as mulheres de areia, somos também de pó. Dissolvemos, separamos, unimos e ocupamos. Nós, as mulheres de areia, não sabemos andar só. Só andamos por onde passam as pedras da água do rio, só viramos sereias quando a chuva é mais forte e silencia os pássaros do anoitecer.

Nós, as mulheres de areia, brindamos e corremos na direção do fogo, porque é nossa natureza ser só, mulheres de areia, de fio e de nó. Nó de três, nó de arame farpado, para mulheres de areia, desatar é no sopro do que fica em dominó.

Somos correntes de ouro e felpas prateadas, somos do tronco da árvore que bate no céu e encontra a porta aberta, sempre que o acesso ao subsolo é necessário, mais uma vez.

Nós, as mulheres de areia, não temos direção nem caminho, somos de passagem, somos a brisa e a aragem que esfria teu coração se te puseres a pleitear atenção inóspita. As mulheres de areia são ilhas e são o destino, são poeira no vento e são guarda-sois coloridos, mas são tua água do deserto e nisso que o susto do temporário é além das distintas flores sobre a mesa de jantar.

As mulheres de areia são o filtro de barro e a cachoeira no inverno, mas as mulheres de areia jamais te desolam, pelo contrário, mulheres de areia recolhem os cacos e pintam novos quadros em paredes vazias, pela simples necessidade de fazer colorido no que é cinza de outono.

Somos as mulheres de areia e somos as cinco dimensões que podes alcançar sem sair do teu lugar, ainda que não tenhas a pretensão remota de enrolar nós, nos cabelos de pó das mulheres de areia movediça.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Nas águas de Copa e de muitos

 Um mar de muitos, de tantos e de todas de si que cabem na tua atual versão. O mar de Copa  é um mar do velho e do novo, um mar que atravessa as dimensões e sintoniza o tempo na distância que há entre uma memória e outra. Outros tantos de nós que estamos e que vivemos assim como gostaríamos de ser.

No mar de Copa, o que é avesso atravessa o espelho da tua casa e te devolve ilesa às tempestades de setembro que chegam inconstantes e rasteiras. O mar de Copa te dissolve em sabedoria e champanhe. Afaga a tua mão aquecida de primavera e te despe num vestido laranja, colorido com o pôr do sol ao nascer do dia de outono.

A água que dissolve o gelo, congela o inutilizável e depois transmuta e faz descer a solidão a pé ladeira acima. E assim todas as formas de ver a janela da tua sala, são translúcidas, mas apesar de nem sempre cristalina, a água purifica e cura as eternidades de espera e silêncio.

A palavra tem um tempo, nós temos outro. Enrolamos o laço que só nós sabemos apertar. Ecoamos quem somos, quem és e de quem tens vindo. E assim, disfarce os laços que soltam antes do tempo chegar. Convidado de honra, ele vem a galope quando sua ausência é brindada com alegria.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Silêncios que escutam

 Existe um silêncio que as pessoas carregam nos olhos. Um silêncio escandaloso, oblíquo e audaz. Este silêncio é tão surdo quanto aquele que o escuta.

Ouvidos e boca aberta pro mundo, é tudo o que é preciso pra que tenhamos o todo de nós escondido embaixo de nossos cabelos molhados de chuva ou de suor. Eu não sei escutar perfis ideais, só os que parecem confusos e secos. Encharcados de sonhos já idos que ficaram dentro de uma gaveta de meias, esperando o despertador tocar e o silêncio rugir.

Sempre que os silêncios são lindos, não podem ser ouvidos. Mas silêncios distantes estão perto, com frequência, daqueles que fingem que são e sabem que estão, em dimensões além de suas cabeças barulhentas. O silêncio dos olhos deságua em terra firme e traz leitores de mãos e de textos sobre descaminhos ou sorte.

Não és ouvinte, és surdo. Sempre que insistes em deixar esvair nas tuas mãos tudo aquilo que pretendes descascar como nozes. Nós somos o outro do outro e vemos os silêncios de olhos perdidos no avesso de sentidos desligados no disjuntor.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Fronteiriço acaso

 A fronteira da memória é o acaso. O outono adormece e a tua presença renasce envolta em fumaça de incenso e histórias paralelas. 
Mais um texto místico e desestruturado, com destino certo mas sem tempo marcado. Não peço ao destino que descanse, ou que descasque até chegar na flor e te ofereça o perfume teu que vem e vai, emerge, retorna, vem e vai e vai e para. 

Levemo-nos de mãos dadas na água corrente que é doce e que é salgada. Ou então, levemo-nos soltos ao nó do cadarço que prende o sapato que conduz os passos. Descalços, no presente, no passado e no futuro, sempre na contramão do que parece ser, somos agora menos dispersos apesar de acelerados. Sempre alheia a tudo o que lhe parece certo. Incansável, leitora de olhos e de sonhos.

Leio as linhas finas que contornam o teu rosto quando despertas de uma nova noite, porque és feito de barro e isso já basta para que estejas no adorno da minha cabeceira.
Desmonto a estrutura já posta, porque os opostos se distraem e disso bem sei, disso antes já sabes. Sei eu e sabe a canção. De novo ela, de novo ele e de novo o novo que nasce atento aos flertes entre o aqui e o agora.
Entre os fios que tecem a noite, uma lua descompassada aparece por aqui. Nebuloso clima de quase inverno, transforma a flor de verão em cisco de madeira, tão frágil que destila em água doce e deságua aos olhos e aos destinos.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

A parte do todo

 A tua grata presença mística constrói o caminho do encontro. Encanto de sereia é canto de pirata, mas eu te conto baixinho sobre as profundezas do rio que é Rio apenas no nome, pois sua natureza é de lago.

Quem sabe um desencontro, quem sabe onde andas e por onde andaste até aqui e agora. Nem em mil voltas ao sol de capricórnio, poderia supor a tua presença transcendental no meu cotidiano acelerado, para pensar em nomes da terra que só pisaste em pensamento. Penso nos dias de sorte, falo de espelhos, de olhar reflexos e de memórias. Ando, cancioneira e atenta, cogitando sobre a dimensão que estás. Onde estive, não andaste. Procuro, olho nos cantos do ônibus, olho ao atravessar as ruas do centro, olho no meu olho sorrindo e não encontro onde andou tu e a tua grata presença.

Existe uma canção que canta tranquilo como és, de um som indescritível, mas que me confessa em silêncio gritante o segredo do teu caminho. Um retorno, duas voltas, alguns minutos a mais e tropeçam juntos os trapaceiros de Cronos. Herdeiros de linhas universais, caras desenhadas em estações diferentes, não são de fases da lua que aqui se fala, mas de tempos diferentes que refletem no mesmo espelho.

Volto, leio, releio e ressignifico o ponto de partida de risos já idos. Voltar é estar aqui e agora, voltar é deslocar-se acompanhado da sombra e do afago. Mas quem não sabe cantar, dança. Quem não sabe falar que leia, e quem não sabe pedir que ofereça.

Não sei se a tua mão segura regras de tabuleiro, mas vou comigo e deixo contigo o que trouxeste outrora em sensação. Em tudo isso, até pensei na estação de rádio para o antigo novo tempo que nos aguarda. Na previsão do tempo, o sol de inverno. 

Por aqui a lua de morango segue também comigo. Segue contigo e navegamos. Continua, continuemos. Em desafios de linhas entrelaçadas e feição de nós, contigo não há descaminho, contigo há a criação. Desdenho os desígnios das fiandeiras, não vejo fim nem começo. Vejo cenas de uma nova janela que escuta Caetano e que impulsiona melodias que vibram em si, sem nomes próprios derivados de alguma página solta, mas com narrativas compostas de alfabetos inteiros e ainda pela metade.


sexta-feira, 2 de junho de 2023

O ciclo das águas do mundo

 Um lugar vocacionado para os encontros, um colorido cinza mas aceso. Escrever é desfolhar-se, piegas, mas um fato, dizem elas, as muitas de si que estavam adormecidas.

Não há restrição para as águas do mundo.

Tú que puedes, vuélvete, diz a canção. Vuélvete para allá, volta e meia é isso.

Distante, deslocado, suspirante, navegando pelas águas do mundo. E mais um amontoado de memórias escorre pelas mãos, atravessa o corpo e os corpos que não se encontram na atmosfera cíclica de vidas que passam e questionam o quanto de ti em ti está registrado em meio ao caos cotidiano. Distantes, desesperados descansam em terra firme a fim de não desafiar a tempestade. São só montanhas, mas são montanhas de mares, de rios e lagoas e por isso, tú que puedes, pero también tú que no puedes, vuélvete.

Tic-tac, o tempo também esvai no final da tarde de outono em que as folhas não caem em formato de coração. As folhas daqui contornam o chão em que não há ladrilhos, é o chão dos plátanos e dos ipês, é um chão molhado, úmido e fértil ao novo plantio.

Tú que puedes vuélvete, mas não acomoda os braços à mesa só para olhar a janela da rua. Vuélvete tu, não o tempo.

Não sei cantar, nem tocar piano, mas a palavra que salta aos olhos pula também do coração. Não há mais folhas, não aquelas com formas e cheiros que instigam o céu da praia em que o sol nunca se põe. Mas de cá percebe Gaia o cochichar de Cronos e Inti. Geniosos birrentos, motivados ao desafio, jogam dama e apostam naquele que cai primeiro.

Enquanto isso, cochicham. Sugerem campos e canções, sugerem que tú vuélvete, sugerem que tu desmonte. Gaia suspira, Juno convida-a para um chá e assim caem todos nas mesmas águas do mundo que jorram da afluente incansavelmente cristalina e rebelde.


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Nós e o laço de vida

O caminho é feito de inacabados. O próprio texto é sempre inacabado. Toda a escrita ensaia outra e a existência é tecida em finas linhas da fumaça do teu cigarro.

O espaço vazio era da redoma emprestada, agora ocupas de novo o universo e com itens menos delicados. Um soco inglês esquecido e a decoração mais bonita de todas na única janela pra fora de casa, assim descansas agora.

Nessa tua morada eu escuto o silêncio cancioneiro outra vez embalado numa respiração de quem regenera. Sete vidas, setenta e sete delas e quantas mais quiser. Entre câimbras e piso quente, um cheiro insistindo em caçar meu sono. Cheiro teu que ilumina, clareia a noite e faz ser de novo dia. 

Cheiro de cigarro emprestado, de amores infindos e de satisfação na companhia. Pequena, tão leve, dizes. Levitar de sossego, e de levitar flutua. Esquece que não tem asas, então as desenha e cria a solidez que busca. Leve não será leviana, só sabe levar pra fora o que já não serve.

Entrelaçados os fios, as luzes da noite, os dois só(is) de novo e de vez em quando, inacabados. Vivos, em laço, enlaçados apenas no querer, avessos ao nó. Nós, inacabados. Nem par mínimo nem máximo, um par de luvas nos caberia bem. 

Enquanto não laçamos o tempo a fim de pará-lo, o destino enlaça-nos e sozinho desata o excesso. Saturno carranca, entristece-lhe aqueles que brincam de moira. Destina - sempre a seu tempo - a quem ata, apenas o pó e a lembrança do inacabado.

Desatados, o destino desata, destina e acomoda. Desordem, sobrevives ao caos.

Encosta, descansa, respira

Nós.

Só o pronome dessa vez. Tudo segue leve, não leviano. E na janela, o dia clareia mais cedo em toda vez do eu contigo.