"Tudo o que Borges dizia tinha uma qualidade mágica (...) E eram mágicas porque aludiam ao homem escondido por trás do Giorgie que conhecíamos, um homem que, em sua timidez, lutava para emergir, para ser reconhecido."
A isenção da vida não é parte do faz de conta. Estela amava Giorgie que não era o Jorge, amava o que escolhia estar isento, ainda que tentasse enveredar para o contrário. O amor, Estela, é desses casulos de solidão e de negação, mais vezes do que pensamos.
Isentar-se da vida é motivação dos descaminhos, cara Estela. Isentar-se, pois, não é fraqueza de quem está sozinho. Aquele que se isenta, sente. Sente até mais do que a sua plateia. O isento escolhe não sentir quando acha que já não cabe mais na própria casca.
Contudo, não é um covarde o isento, é um corajoso, por certo. O que ocorre, porém, é que o isento faltou no dia em que a aula foi sobre os milagres das possibilidades. Ainda que ele saiba das sensações e escreva sobre elas. A ausência de coragem no isento, também é ilusão da condição de si. E quem sabe o motivo da sua ausência, às vezes, é só falta de sorte. O isento pode estar disperso na transparência de suas fugas, ou imerso nas tantas caras que têm.
Finge que ri, porque não sabe se é capaz de comportar uma dimensão tão grande, qual é a da felicidade. É de sua natureza se enxerga pequeno.
O contraditório lhe habita. Ele, sabe que é gigante, mas desconfia que isso seja, também, só mais um artifício da isenção.
O isento continua inquieto mesmo quando dorme. Para ele, o sono lhe dissolve os pesos que o acompanham e isso já lhe basta para aparentar outra ilusão. Quando acordar, não sabe quantos mais de si irão levantar e permanecer isentos.