sábado, 6 de fevereiro de 2021

O riso azul

Tem um sorriso azul guardado aqui dentro. Na caixa de charutos que nunca fumei, na garrafa de vinho português que guardei e nos 21° da janela da sala, tem um sorriso azul.

Quem diz do sorriso azul que ele não é permanente, tangencia a imagem dos espectros que lhe acompanham. Todos te acompanham, mas nem todo riso é azul. O meu riso azul tem endereço, sempre que ele aparece tem endereço. Não é um riso estudado, pensado e guardado com o intuito de conservação. O riso azul está nas alegrias serenas, nas sintonias cadentes e nas saudades grandes, forjadas em pequenas cuias de chimarrão decorativas.

O riso pequeno nunca será azul, tampouco o grande. O riso azul é peculiarmente atravessado por sensações que habitam a cara estranha de um rosto qualquer que em hora ou outra aparece, quase sempre quando se está distraído do mundo e do que se havia desejado na noite passada.
É o diamante azul, o coração do oceano, mas sem mergulhos eternos como no Titanic. O riso azul não nasce da superfície, mas ele tem asas que lhe carregam de volta sempre que estiver imerso demais.

São os risos azuis que subvertem as estações do tempo e trazem o clima de outono em pleno verão de fevereiro. Os risos azuis são a materialização da cura, essência do gosto genuíno que só tem um riso que é azul.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Um texto setembrino do ano par

 Se tens uma sombra, eu te clareio. Ilumino os teus caminhos, porque sou candeeiro. Pra veres que sabes enxergar - repara - não porque te sigo com anseio. Bem vindo de volta, és aquele que é refletido no Sol.

Não te inquieta com a minha presença, que embora quente e de claridade forte, não te queima nem te cega. Sabes. Desencontros sempre são fraturas, não queiras sentir que não. De fraturas entendes, não por escolha, mas por designação. Tudo o que é sólido é passível de quebrar, não são os teus ossos, é a atmosfera e o universo em sua justiça salutar. Disso também sabes. És quem quebrou e já foi quebrado, mas vens pra fluir nas águas profundas do mar. Não queres mais lagoa, nem deixar que te naveguem sem te consultar. 

Segue o teu rumo e os teus redemoinhos. Contigo, vais quando queres, tens liberdade e vida e não vais mais definhar. Ora, personificar a divina figura de Inti é tarefa fácil pra quem sabe de jogos de palitinhos e das artimanhas da insubordinação. Sabes quando queres quebrar, sabes também quando não queres. Sabemos, é sabido e acordado por quem somos e pra onde vamos. Reconhecer quando não é impulso é saber cortar as asas que o outro não te deu, antes que te devorem em voos desengonçados e imaturos. Mas disso também sabes. Regenera, descansa e sorri. Não quero asas, não hei de querer ter asas, diz na fala do poeta e na minha . Os anjos caídos são desencantados, não são feitos de ilusão nem de magia. Anjos caídos são elevados, cabendo a ótica a quem quiser também ser olhado. Sem susto, nem pulo, nem vôo. Somos apenas "o Sol de um novo dia".

As conversas de sonho são sempre as que trazem respiro e limonada, água de chuva, se quiseres. São conversas que têm o refresco que precisa aquele que é quente. Mas não queres pantomima, nem água parada. Sabemos. És mar de ressaca e tens Terra lavrada pra veres que é barro e que és firme. Sou disforme e em ti não busco sombra, nem noite vazia, nem conversa fiada. És o que queres, não o que decide. Chega. Vem de novo e te ilumina, te aqueço e te guardo na concha das mãos pra amparar teu sono, tuas angústias e os teus risos galáticos de solidão.