quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Filho primogênito de Saturno

Pra alguns o tempo não passa. Pra outros ele passa ligeiro e impiedoso. Mas pra aqueles que sabem vivê-lo, ele passa tão bem, que poderia este tempo dar mais quarenta e nove voltas de doze meses e nem mesmo assim as suas marcas mais pesadas seriam percebidas.
O tempo sempre será aliado fiel daqueles que lhe são gratos, e que sabem viver as suas curvas com alegria.
Eis, meu guri, que nessas curvas percebemos que nem só de permanências vive o homem. É do pulsar pela mudança que desabrocham as melhores possibilidades de nós. Disso bem sei, o sabe o tempo e sabem as noites enluaradas em que foram tecidas todas as escritas que já recebeste.
De silêncios nascem jardins, e flores que têm nomes comuns, como os de nossos filhos. De falas curtas nascem fronteiras identitárias, literárias e culturais. As fronteiras são rapidamente unificadas pelo sentimento das novas sensações, cores infinitas que transbordam o mosaico que compõe o deus do vinho com a Não deusa do amor. Forma-se, então, uma sincronia mágica, podem ver os atentos. Essa sincronia é o que faz a essência guardada no pote de ouro, que não está no final do arco-íris, mas no final da ponte que divide as águas da baía. Cada espaço entre as sextas-feiras do ano ímpar, foram as doses necessárias pra transbordar aqueles capricornianos corações rochosos. Estes que não são meras engrenagens, ainda que Ricardo Reis me contradiga. Os homens e as engrenagens, são uno e são múltiplos. São metades completas do que julgam ser inteiros. São homens metafísicos, de uma beleza sublime que só as divindades da mitologia podem compreender. Homens que não são máquinas, contudo, perdem-se por acreditar que são vazios. O óbvio se alimenta do inverso. Estes materializam as imagens disformes que se vê em manhã de geada, então sucumbem e tornam-se parte da escrita borgeana. São engolidos pelo tempo e pelo vento e não podem ser salvos, nem pela piedade majestosa da sagrado sopro da existência.
Mas do divino homem não me apiedo, não me inquieto, não me aborreço, não me questiono, não me envaideço. Nem eu, nem o tempo. O que penso de si é calmo, é paciente, é generoso, é iluminado e é audacioso. Antes, porém, considero o que pra o astuto e corajoso, Saturno mandara falar. Emposta a tua voz guria - sussurra ao meu ouvido - leva pra que ele receba o recado que é meu.
Eis que lisonjeada e faceira, trago as tuas verdades mais uma vez, como uma porta-voz do universo. Nada que já não saibas, bem sei. De novo, porém, apenas o som que te anuncia a beleza da vida. Quem a tua existência canta agora, é a Não Vênus, que fala sem melodia e sem chiados. Apesar disso, fala molhado e quente, aveludado e transparente. Numa fala que te toca suave, chega em ti como os taninos das taças que entornas querendo contigo a mágica das luzes. São palavras aquecidas no tempo e envoltas no desejo de tê-lo consigo e de trazer-te a boa nova. Aquela sobre o melhor dos mundos, em que se reencontram os dispostos, iguais e submersos, e concebem juntos em horas infinitas a pequena morte.
Morres desfolhado agora e renasce em broto novo, vívido, faceiro e corajoso. Retoma a tua altivez de tronco largo e robusto, árvore sólida que és pra os galhos fortes que de ti hão de surgir. Uma nova espécie, resultado do casamento da raposa com o rouxinol, com a licença do Valença, amigo Alceu.

domingo, 8 de dezembro de 2019

A fonte da escrita sem fim


O que desperta o teu interesse naquela que é incógnita, vem da tua curiosidade no espelho. Sabes que, assim como o pai é exemplo do filho, o mestre também inspira o discípulo. Aqui, nada há de bíblico, exceto a poesia.
Quando ela lhe confidenciou as rosas vermelhas de Capitu, quis ver no teu rosto o orgulho. Esperou de ti exatamente o olhar de satisfação. Nem era pra ela, nem pro destinatário que enviou as flores, mas pra ti. O que explica a admiração do homem, a vontade de ser aceito e o desejo de ser aplaudido ? Talvez as suas divagações femininas que ululam o pensamento em madrugada de tempo frio em pleno dezembro. Talvez, o retorno dos que nunca partiram e que continuam lhe alimentando o coração de alegria só pela metafísica certeza que está igualmente na narrativa do outro.
Não há fórmula para a juventude, assim como não há receita para escolher a quem o afeto se destina. Mas como disse aquela que é sábia e que é sabiá, o nosso querer é sempre nebuloso. Andamos a passos largos esperando encontrar o que se havia querido há segundos já idos, daí que o presente nunca há de estar em sintonia. A insaciável fome é pelo desconhecido, disso também lha ensinaras. E se o que lha toca os dedos é o cintilar das letras bem dispostas, saibas que a tua harmonia também está ligada a isso. Se já lha tivesse deixado, como é da tua natureza fazê-lo ainda que a si, ela teria se perdido no descaminho das sensações que nunca viraram escrita. Teria procurado uma casa estranha de cinco cômodos, deitado na cama da sala cujo colchão é feito de livros e, acomodada no conforto do lençol de algodão, teria esquecido a que veio para tão longe. Tão longe que é matéria de sonho. Sonhos que lhe ocorrem com uma frequência quase  insensível, e que ela  ainda sabe distinguir tais dimensões. Por sorte ou por reciprocidade, seguiste aqueles que permanecem na plateia. Segues aplaudindo quando as cortinas se fecham, segues perguntando donde vem tanto dom pela palavra, segues querendo estar presente mesmo entre os tantos desejos nuviados que dominam o teu coração humano.
Saibas, nada há de irreal em estar presente. O contrário do que está óbvio é só demagogia. O que ela quer de si, nada tem a ver com coisas outras, só que cuides. Cuides do cuidado pra não perderes o brilho da loucura que escolheras para a vida, matéria prima divina esta, que só pertence aqueles que amam o improvável.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Lágrimas de Vênus

   As lagrimas de Vênus chegaram quando não se esperava mais as astutas pretensões de escritura pelos fantásticos animais terrestres. Evidentemente, essas lágrimas não são comuns. Se são lágrimas de Vênus, vem de uma divindade e daí o seu peso maior. Essas lágrimas de Vênus são para lavar dezembro, para levar novembro e para encerrar com o fio da navalha o que precisa ser encerrado. 
   Vênus não é divindade que esteja à mercê das vontades do tempo. Embora ele a domine em algumas circunstâncias da eternidade, esperar está longe de dominar as suas atividades na terra. Vênus sempre sabe o que quer e não se cala quando a voz está em sua garganta. Afiada, Vênus é ardilosa, é perspicaz, mas é piedosa. Ela tem o que quer quando está disposta a ter, desde que isso não lhe custe mais que o peso do ouro. Com isso, porém, não se deita no macio veludo da vaidade. Ela sabe que a sua força não vem da espuma do mar como seu nascimento, mas vem de suas lágrimas.
   Por que Vênus chorosa pode ser resultado de frustração? Não deveríamos supor tão facilmente que o tom suave do seu lilás, atribui às lágrimas o dom da transmutação passageira. Da água viemos e à água retornaremos, não ao pó, à água. Pura e livre das chagas da humanidade, a água libera tudo o que ficara aprisionado, por isso Vênus chorou. Mas nem mesmo a deusa do amor foi capaz da autocura. Vênus chorou para colorir o último mês do ano com a cor da transmutação. Sua mais bonita habilidade está em banhar-se no choro para não ficar atolada nas lamas de suas realizações adiadas. É assim que, embora parece triste, Vênus só estava em seu processo natural de fazer vir a si as coisas que deseja. A tristeza, para ela, cabia num pequeno globo de cristal, onde guardara a última lágrima da noite. Naquele dia ela olhou o sol como o ainda não tinha visto, ele estava solitário e parecia sereno no seu movimento de entardecer. Vênus não soube ser solta, prendeu os pés na grama e fez os últimos raios que lhe chegavam ficarem agarrados aos seus cabelos para que ela sentisse o calor de quem não se importa em dormir sozinho todos os dias. Não era pelo sol que Vênus estava enamorada, mas pela sua capacidade de iluminar a si e aos outros.
   Mas os pobres mortais não a compreendiam. Disseram-lhe que a queriam para si, mas que a competição era injusta porque Vênus amava à Baco, uma outra divindade, como a sua própria natureza. Vênus sorriu ao ver tamanha ousadia, e novamente chorou. As lágrimas de Vênus na ocasião foram de pesar. Quão egoísta poderiam ser os homens que no auge de sua audácia a queriam para si como um enfeite bonito para suas cabeças vazias, Vênus se questionou. Ela chorou, recolheu então as lágrimas em uma banheira sedutora, em que afogou aqueles insanos, como se fossem pequenos girinos presos pela própria cauda em formação.
   Vênus não é a tirana, mas insere suas marcas em todos os lugares que habita. A sua presença é capaz de encerrar padrões oriundos do Eden. Vênus é prima de Lilith, para quem não a conhece. Mas neste primeiro dia do mês de Dezembro do ano de 2019, Vênus é o tom suave de lilás presente no esmalte das unhas desta que lhos escreve. O nome, na certa, fora dado por algum desavisado (mortal, por natureza perversa) e pretensioso que ousou chamar a um adorno feminino tão singelo, de Lágrimas de Vênus.