segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O sentimento do mundo (outubro de 2019)

Tens o mundo nas mãos e os teus desejos ao teu alcance, não é piada, chegaste.
O segredo é gostares primeiro do que tens, não há outro caminho.
 O universo escuta e devolve bordado em ouro a tua escrita de sintonia. Para isso, porém, não basta que te agrade, é preciso que o teu gosto seja genuíno e feito de alegria.
Se pensares, normalmente gostamos mais da ideia que fazemos de alguém do que propriamente desse alguém, disse Pessoa. Basta que penses nas fantasias que criamos com alguém, das matérias de sonho que temos  com tal pessoa. Daí comparar com este ser concreto no tempo real, e a realização é sempre inferior à utopia.
Aquele que tem discernimento para compreender que somos feitos de desejos, de solidões - dissera o artista - tem o antídoto para a tristeza e para a frustração.
É importante que queiramos aquilo que desejamos, que saibamos, sobretudo, querer. Mas também é importante que queiramos aquilo que temos.
O que esta próximo também pode ser o espelho de realização, não é preciso que a natureza nossa de incerteza, conduza a uma emoldurada imagem de ideal.
Queremos e queremos diferente, de inúmeras formas, mas o querer também deve ser contemplado com satisfação, e disso bem sabes.

sábado, 28 de setembro de 2019

O desejo e a utopia do rapaz


Quando a flecha de Zenão foi lançada o desejo era indissoluto.
Nao se quer aquilo que se tem, nem aquilo que se sabe que terá. O desejo está direcionado pela utopia e pela abstração.
Soubesse disso, o rapaz da utopia não teria pensado em Tomas Morus para o primeiro presente a sua lady. Mas como a flecha, a palavra está lá. A dedicatória é sublime, carrega o peso de cinquenta ensaios de escrita, de horas dedicadas a fazer arroz doce e falar de literatura.
Nao era essa memória que a essência da escrita precisava, mas foi a conveniência do tempo que a trouxe.
O desejo é todo tecido por certezas flutuantes, daí a ideia do mesmo autor de que o segundo presente seria não a flor, mas um pé de jasmim.
A permanência da planta lhe faria presente ainda que não estivesse ali, ele venceria a barreira da efemeridade do tempo e ainda se faria presente para ser lembrado. A ideia era boa, não fosse o desejo que lhe sabotou com um tapa de luva e uma rosa branca certeira.
A fase do encanto passou, subverteu o desejo em frustração. Disso nasceu primeiro ódio, repulsa e depois desejo de novo. Ele não tinha saída senão tentar, sabia disso, agiu conforme a intensidade de seu querer desajeitado.
Nova frustração e acúmulo de desejo. Seu alvo já estava desenraizada, o desejo não a consumia mais, ela estava apaixonada por si e  a permanência vazia, dissoluta.
Ainda que cinquenta mil passos sejam dados, o desejo dele deve estar por lá guardado, recalcado e sozinho, ansiando o momento de sair pelo ato falho e virar sintonia.

Quando conheci Baco


A beleza do homem vermelho está refletida na taça de vinho.
A culpa é de Baco que fez dele sua imagem e
semelhança.

Nunca pensei em conhecer Baco pessoalmente
Saber de si já me bastava, não fosse o descaminho místico das constantes coincidências de semelhança entre nós.

Baco também é da terra e é desenraizado.
Baco olha-me com a sutileza de um arqueiro que tem seu alvo marcado.
Baco não compreende as superfícies rasas do amor,
Ele sente e impulsiona de si o que quer.

O universo segue em sintonia quando Baco vem à terra.
Encontrou-se com a Gaia desconstruida no Tempo e disse que lhe é solidário
Baco tem em si dimensões que não são contadas
Ele estrutura as palavras nas proporções de suas intensidades porque não quer dividir com o vento o que preserva para os deslocados.

Baco não sente que ri.
Ele guarda a sintonia de suas alegrias nas orelhas dos livros que escreve,
Cada ser uno tem a dimensão maior do que ela realmente é,
Baco não é diferente.

A palavra não é a flecha, ela é a matéria de veneno e de poder sobre quem é lançada.
Baco não sabe o que quer,
Mas Baco sabe o que não quer com afiada certeza.

Não sei quantas vezes mais o encontrarei materializado, ou se de fato alguma vez o encontrei
Permanece o jogo da incerteza entre nós.

No mais, vergonha pouca é bobagem
Baco fala-me ao ouvido toda noite no sono.

A energia de Baco é quente,
Mas o vinho não cai bem nos climas de sol escaldante,
Eis o dilema.

Da próxima vez, vou consultar a sereia de Esther, a judia.
A resposta certa é sempre o avesso do que parece, mas disso só  sabem os que amam o improvável.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Uma essência em registro

A essência do cigarro é o fumante.
Meio cigarro entre os dedos e o quanto de exuberante há nisso sem a palavra

Elos inocentes de um olhar maduro e enferrujado os percebe em uníssono,
Perpassam o moço, o cigarro, o pálido, o sólido
O tranquilo e o real.

Naquele semblante uma espera
Desconfio ser apenas a angústia da última tragada
A mim, parece-me uma espera genuína,
Antes, porém, enrrigecida de solidão.

O cigarro acabou,
 a aura de uma legítima persona borginiana esvaiu-se com a última fumaça.
Volta o moço ao seu casulo.
Franzino, pálido e delicadamente cacheado
Ele me olha.

Por segundos afinco na segunda-feira de um sol poluído
Duas vezes ele me olha.

Fez que vai levantar e acende outro cigarro
Segue sentado e agora parece nervoso.
Ele sabe que foi notado por alguém além de si.

Bate as cinzas com toda a sutileza de outono que lhe compõe o ser,
Quase impercetível
Oculta-se na fumaça e discretamente ri
São novamente um só, o ser a sua poesia
Invocando de longe a literatura.

A serenidade no ato de tragar é o belo.
Feito de desejos, materializado em realização.
A poética do exagero não coube tão bem antes

Meu olhar de pequenez queria dizer que fiz deles escrita, mas não cabia mais na página.
Olha-me pela quarta vez, apaga o cigarro e sai.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

A roda: parte 1

Desportar para aportar.
Penso nas voltas que a roda precisa dar para deixarmos de teimar no desequilíbrio que nos favorece. O equilíbrio aparente que torna confortável e cômodo o enjoo do cima que vira baixo no pôr do sol.
Quando se vê, disse Quintana, em conflito com Saturno por ter sido tão cruel. Ora, se a culpa não é do tempo, a interferência dele não deveria ser insinuosa em tamanha proporção.
Nesse embalo, encontrasse eu o Mário, lhe diria que também sou dessas, que todos somos, mas que ele também o é.
Encontrasse, tivesse, buscasse... Quantos verbos mais no pretérito imperfeito é preciso que tenhamos na lábia para justificar o temor ao tempo ? Infelizmente, não é no discurso que vem a resposta, mas no vai e vem do relógio. Lá e De Volta outra Vez, as madrugadas são pra isso nos dias em que nem o silêncio é tão mudo quanto nós.
Escolher ficar é puramente uma questão de motivo, não de planos, não de outorgadas ideias de um futuro já ido. Ficas aonde os teus pés te levam e o teu coração te traz de volta. Num movimento cíclico ou indirecionado, sempre no rumo do teu próprio coração. Qual a liberdade que tens, qual a roda viva que queres

A roda : parte 2

Os tantos interesses temporários que temos são tão ou mais subjetivos que o silêncio da conquista.
Tardar a alegria é bater na própria cara e esperar de si mesmo o consolo. Mas nem só de tolices vibra o coração do homem, que também se satisfaz na parcialidade das sensações. Afinal, intimída-se com tudo o que é intenso, porque isso lhe transbordaria a rasa superfície de coragem que tem.
Mas ai de ti que subverte o óbvio, advertem-lhe as convenções e novamente cai no embalo dos contos de poder que tanto repeles nos teus garganteios.
O discurso daquele que domina sempre encanta o dominado e assim constroi-se a teia, delicada e ironicamente tecida pelas moiras.
Mais uma vez segue a roda, não para o tempo nem as vontades, nem as covardias, nem as vaidades. Paras tu, estagnado no teu embalo de veneno e nostalgia serena.

Pessoando

Pensar em memória é um teletransporte imediato às lembranças, histórias e estórias já idas, que comumente inspiram a derradeira vontade de reviver o momento. Nesse embalo trago ao presente as memórias de como conheci Pessoa e as 136 pessoas de si. Dos que lhe habitavam, apaixonei-me pelo que levava flores à guria da loja de cigarros por volta de onze da manhã e depois das cinco, passava sem fitar-lhe sequer de relance os olhos. Enquanto ela, intimamente desajeitada, debruçáva-se à janela pensando confusa no encontro caloroso de outrora, teimando no amor inquieto do amante que era duplo, que era uno e que era tantos.
Entretanto, nada de confuso há no pertencer de si que habita mais de um. Ampliar o discurso para a fala de outros que ainda são um só, na intemperança de enxergar o vazio sempre no reflexo da ausência.
Ser tantos e não ser nenhum, em qual daqueles que lhe pertenciam, mais pertencia o hospedeiro físico, questiono. Por que não somos capazes de pensar na impresença de algo ou apenas na presença do vazio quando tomamos conhecimento do espelho da alma?
Não se fala aqui de coração, fala-se da alegria de estar e de ser, de entender os entrelugares e de pensar na beleza autêntica que mora na imensidão de uma memória mansa que não é mais conturbada pela nostalgia.
Fala-se de estar onde estás, de seres e pertenceres ao lugar e de guardar contigo as memórias, para que elas sejam o teu refúgio de aconchego e não uma sepultura criada por desejos de partidas frustradas.

A não Vênus

Quantas de nós libertas, ainda despertam acorrentadas pela censura do ar que já foi respirado por Elas.
Quantas de nós, Emmas, Iracemas, Isauras,
Gaia.

Bruxas que expelem veneno, quase cobras, serpentes
Evas, ou Héras.
A chave é o feminino, o cadeado também.
A culpa é da Capitu,
Culpa, é de que natureza ?

Traiçoeiras hienas, sempre espreitando os pobres leãozinhos.
Laila sobreviveu à Cidade do Sol nos anos de chumbo,
Olga Benário não.
As histórias só se cruzam quando se pode enxergar a teia, porque o comum entre elas e que eram, pois, Elas.

Vênus é a tirana, tão mais que Pomba Gira Cigana, será ?
Não brinca com isso guria, és de sintonia com a terra, cabe em ti todas Elas,
Quem és, senão Ela ?
A Tangerina, do Brilho Eterno
Não
A canela da Gabriela, talvez.
O oposto de Vênus , desconstruida e boba.

Menina
Mirtila
Mimosa
Maior
Meio solta,
Meio presa,
Muitas vezes enraizada
Mas sempre inquieta, curiosa
Marcada.
Maria é Ela
Ela é tu, sou eu,
são Elas e nós.
Mulher.

Para o Homem GreNal

A importância do homem greNal chegou aos 11 anos. Um homem grenal que também é o homem sul-americano, somado vale por dois e em muitas partidas valeu pelos onze.
Mas isso de pertencer à história do clube é para poucos, é  preciso alguns elementos essenciais que tornam o jogador comum, num semideus da bola. Um jogador comum passa por vários  clubes, faz seu papel em campo e vai se adaptando ao que lhe é exigido ao longo (ou curto) de sua carreira. Para ser a identificação do clube, porém, é questão que compete àquele que se dispõe a assim sê-lo, sujeitos que vestem a camisa pelas veias e não pelos braços. Foi assim, que para entrar pela porta estreita, D'Alessandro usou o gatilho do "LA boba" ainda que o adversário pesasse mais de 80kg e superasse em muito os seus 1,74cm de altura. Soube levantar a cabeça para olhar o jogo contra o Chivas na final da libertadores de 2010 e ser o garçom que Giuliano e Alecsandro precisavam para trazer o caneco ao Beira Rio pela segunda vez.
O hermano atrevido honrou a camisa colorada como poucos, chegou a Porto Alegre com cara de guri e futebol de gigante, subiu no salto pra entrar de sola quando foi preciso ser guerreiro nos 90 minutos e logo estava agarrado ao chimarrão da gauchada, vermelho no sangue, no coração e na camisa 10 que conquistou como poucos na história do colorado dos pampas.
D'Ale é Inter e Inter é o nosso sangue que vibra em vermelho e branco toda vez que ele põe o pé em campo.
Do Celeiro de Ases para a história, gratidão ao argentino mais gaúcho que já pisou no Gigante da Beira Rio.

Essência do amor

É de arte que o amor é feito,
Amar o amor é a arte.
A arte de amar tem que ser baseada em intransitividade,
Porque amar a arte que é o amor,
é obra legítima da clandestinidade.
Nem só o amor negado pode ser transformado,
Tão real quanto a arte, o amor enquanto coisa, nada tem e de nada faz parte.
O amor é, e ser só tem sentido de ligação.
A arte é de amar o amor sem ter nenhuma mínima realidade,
Muito menos de razão.
Só de amor,
Porque o amor ama a parte.

De girassóis e de rosas

Das faces que habito, numa circunstância breve, já quis ser a tua.
Na permanência exata da rosa que és
Rosa, não A girassol que busco ser.
A rosa em nuances de preto, aquela que também acompanha o teu sol, rosa dos ventos sul em que fazes morada nos dias que pra ti parecem sempre ensolarados.
És quase o próprio sol na tua alegria, daí que o girassol faria muito bem as vezes da rosa que tens e do sol que és.
Não é preciso que digas-me nalguma circunstância futura, que a luz do mundo é mais forte, eu pude encontrá-la depois do desencontro que quiseste em nós.
A rosa nem sempre está disposta, canciona com o cravo - diz-me - mas também com a margarida e com os girassóis.
Eu escolho o girassol porque é o clichê que falta na autenticidade, aquela que insisto em venerar, bem sabes. A Girassol, ela, mergulhou inconsolável no infinito daqueles dias do agosto (a teu gosto), questionamos a persona que és e a que aparentas ser, entendemos que o infinito era inevitável mas que o efêmero também, qual a beleza que consiste no Tempo e em nossas flores para enfim receber o setembro que chega amarelo
Que chega sendo o favorito das flores e o escolhido teu.
Procuro na luz, ser o eclipse que prefere o girassol, quando Eu gosto mesmo é de rosas, porque "do que eu gosto é de rosas, de rosas, de rosas

Mulher do XV

Na direção da Praça XV a parada número 15
 para ela que é nascida às 3h15.
Viaja na poltrona 15.
Escolhe quinzenalmente uma nova de si e troca 15 vezes de pele, a mulher do 15.
Arriscou-se a ler Rachel,
Perdeu -se na décima quinta linha
Seu 15 era outros.
Desdenha todo par,
Anda com o ímpar, com o 15 ou com os quinze.
Aos 15 anos tomou a identidade de 30 e não parou.
No 15 de um mês de mudança de estação, depara -se com o 15 e o registra
Mais uma vez desolada.

Quando o Gigante Chorou

Quando o Gigante chorou

Seria uma incontestável desonestidade considerar o Athletico-PR um "Davi", no sentido do tamanho apenas. O Gigante da Beira-Rio foi derrubado por um furacão que entrou em campo estruturado, equilibrado e determinado pelo seu primeiro título de Copa do Brasil.
Vi o Inter ganhar os maiores títulos da nossa história vermelho e branca, Campeonato Mundial em 2006 contra o outro gigante, Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, e as Libertadores de 2006 e de 2010. Tempos em que a identidade do Gigante fazia dele não só grande, mas monstruoso, guerreiro, audacioso e capaz de fazer chorar de emoção a guria de dez anos que estava no princípio do despertar do seu grande amor.
Amar o Gigante é lidar com a perda do eterno Fernandão que foi nosso ícone, carregar na história o D'Alessandro que é o próprio símbolo de que "tamanho não é documento" e pertencer a nação campeã de todos os títulos possíveis a um clube de futebol brasileiro.
Mas amar o Gigante é lembrar também do fiasco contra o Mazembe em 2010, do GreNal de 5x0 em 2015 e de hoje, na derrota pro Atlético, de mais um "quase" em mais uma conquista adiada.
Rafael Sóbis, não só veste a camisa, seu papel em campo (e fora dele) faz dele um componente essencial da identidade Colorada. Talvez este seja um peso ainda maior quando o guri de Erechim lembrar que não pôde ser o nome do gol que consagraria o Colorado no celeiro dos Ases, pelo contrário, foi o guri posto pra dançar na jogada talentosa de Marcelo Cirino pelo lado esquerdo, deixando Rony livre para matar o jogo e derrubar definitivamente o Gigante da Beira-Rio.
Diferente do Golias, não ficamos cegos, mas choramos ao cair e colocar mais um time grande na história dos gigantes. 

Gaia desconstruindo o efêmero

Quando o tempo parou entrei em desesperada sintonia com os ponteiros. Questionei a que vinham, por que vinham e quantos de nós tinham por seus.
Senhora de areia - disse o menor - não vais ter de mim senão aquilo que mereceres, a resposta que queres é de ironia. Se não sabes onde estás e não compreende quem és aí, não cabe a mim responder-lhe em harmonia.
O segundo, mais perceptivo que genioso, olhou-me atravessado, apontou para o quinze e disse: Não pergunta aquilo que sabes, insultas assim a nossa soberania. Vens da areia deste que chamas Tempo, deste que invocas corriqueiramente, esquecendo sua real dimensão. Tens o próprio simbolizado em ti, és uma de suas amantes e não encontrarás resposta noutro lugar que não aí.
Em verdade lhe digo, acende um cigarro, olha a fumaça, és herdeira de Pessoa. Sente a tua raiz que sai das profundezas indomáveis de Gaia.
Após a minha partida, vai e não peques mais, atenta o teu olhar para o que precisas e a resposta virá numa só palavra.
Retirou-se majestoso o ponteiro maior. Não sem antes lembrar-me que não ficaria no quinze pra que eu não acomoda-se os olhos em si, distraindo-me do necessário. Ressaltou também  a importância de não ocultar na memória a sua existência, pra não despender ao descaminho das horas ao longo dos dias.
Ainda estarrecida pela conversa, sentei-me. Abri O Livro do Desassossego e invoquei Bernardo Soares. Depois de alguns minutos olhando a fumaça, eis que tudo estava lúcido.
O efêmero estava ali novamente.