quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Intuição pessoana

Sempre há um equilíbrio entre os desequilíbrios. Partir horizontes com intenção de retorno é confessar que o teu coração não é surdo, ainda que estejas no silêncio dos idos que ainda não foram.
Sabes respirar sem oxigênio, tens as escamas tão duras, que nem de longe te atinge a flecha lançada. Quando és peixe, não cai no anzol. E se em trezentos e oitenta e seis anzóis pudesses ser fisgado, o dobro disso fisgarias sem esforço.
 Se não és de sintonia cruzada, desmente o poeta que canciona contigo quando andas acompanhado. Sempre queres partir, nunca se faz partido. O teu dom de andar inteiro, encanta onde passas e faz de ti o teu melhor espelho. Confia sempre que a tua intuição é pessoana, não imortal. Isso fará de ti poesia, fará de ti desassossego e te trará consolação. Não tens que mudar teus rumos, mas teus arreios. Buscas força no sono que chega navio, nuviado, macio e discreto, quando a força vem mesmo é com o teu broto novo e simplificado. Reúne com os teus que te habitam. Aos que já tomaram a normalidade para si, fala de esperança e de música lenta, fala da solidão com flerte, e da liberdade com o teu olhar enamorado. Nos malabares que conheces, amores infindos te esperam serenos e te guardam amparado.

domingo, 9 de agosto de 2020

A beleza do homem abismo

És de poesia e de abismo, eis que te fala o disco riscado. Não és de enganos, nunca foste. És das narrativas que são tuas, que são autênticas e que são sempre donas do riso que é meu. Vais de encontros, porque és vivo. O que há de verdadeiro em ti, nasce da tua alma andarilha e da tua essência gaiata. Não vais por comando, és de improváveis.
Quantos sons ficaram soltos antes de ti, disso não sabes, nem queres saber, nem o precisa. Importa o que vem adiante, importa quem tens agora, quem dos teus caminha contigo e as contrações que transformam as dores em risos.
Harmoniza as borboletas do estômago, faz a tua sinfonia porque são elas quem seguem contigo. Não vais ser clichê, confio. Teus aliados são cancioneiros, astutos, guerreiros.
Sestroso és tu, mais ninguém. De mimo e de cheiro, és um portal pro cosmos. Sei das águas profundas, ora turvas, ora cristalinas, que tens nas tuas mãos. Sei dos descaminhos, das encruzilhadas, das noites ressacadas. Sei quem estás, de onde vens e pra onde não queres ir. Sei porque sou de salto livre, não porque seja vidente. Sossego nas vibrações de descanso que vem do teu abraço, anseio pelos tempos já idos e pelos cheiros permanentes. Corro presa e me agarro aos cabelos das árvores que falam do lugar de felicidade que existe aqui. São recados que falam sobre as tuas luzes, as tuas armadilhas e a tua transparência. Creio em tudo que é duvidoso, duvido de tudo que é certo. Nada dizes porque de ti já escutei de tudo, em alto e bom silêncio cancioneiro que chega na minha janela todo o segundo dia de cada mês. Sei que és de infinitos, de óbvios, de atípicos e de faísca de incêndio. Derreto, porque sou gelo firme. Se redobro a aspereza, desmancho sempre em maravilha toda vez que vejo o abrigo que mora na casca de bergamota temporona que tanto gostas de exibir. 
Sempre que víris no espelho os olhos de jabuticaba ou aqueles que são da cor de chuchu, lembra-te que a beleza do mundo nasceu de ti e vive contigo em todas as casas pra onde vão os teus pés.