domingo, 22 de março de 2020

15, a mulher que escreve

A mulher que escreve, escreve porque é muitas. Escreve porque é uma e porque não cabe em si, ainda que anseie. Escreve pra outras e pra outros, sobretudo, escreve pra si. E isso bastaria, não fôssemos nós demasiado humanas. Filhas de Saturno, de Iemanjá, de Gaia. Amantes, amadas. Tendenciosas naturalmente a duvidar de tudo o que é bom ou raro. Incansáveis de teimar, teimosas por tentar. Sempre sóbrias, sábias, fortes e líderes.
Porém, sossega. Nada teme, nunca descansa, até que tenhas posto de ti pra fora tudo aquilo que sabes precisa desfolhar. Nada teme, nunca descansa, até que entendas que és guria gentil, calma e te é permitido também sonhar.
Se sente, fala. Se cala, ouve o silêncio. Sê, pois, liberta de ti. Das tuas obrigações, da tua mesmice. Descansa de ser quem sempre busca, espera em sossego pra seres buscada. Faz disso, mais um tema de escrita. Porque bem sabes, nenhuma é vã. Se refletes, é porque precisas.
Então vai, recolhe as tuas asas. Acomoda os teus pés na areia e permite ser pela onda lavada. De novo, aprende em noite enluarada: deixa de ser quem busca, aprende a seres buscada. Segue o teu caminho sem direção certa, mas sempre inundada na certeza do que não queres pra ti e assim, não te perdes no traiçoeiro da tua mente.
Continuas a ser leve, e assim, leve serás pela tua essência fluida e tranquilamente, levada. 🦋 15

O mar de Copacabana

Noturno, um mar de muitos.
Mar de mitos, de mistos
De magos.
Um mar de cheiros, de enchentes
De sopros.
Um mar de autênticos, de clichês
De poucos.
Um mar de algemas, de vôos
De loucos.
Um mar de sono, de lucidez
De insanos.
Um mar de permanência, de sensação
De novo.
Um mar de anseios, de receios
Um mar de imensidão.
Ora bravo, ora manso
Um mar de descanso.
Um mar ressacado, enamorado
Um mar em construção.

Encontro no pôr do sol ao nascer do dia 20

Os olhos que te olham também espelham aquela que pensa sobre tudo. Sobretudo, nada.
Não há desencontros, diz-me o desconcerto. Não há caminho, diz-me o sopro do instante. De planejamentos viramos pedaços incompatíveis, daí a pressa de experenciar o agora. Nada de impaciência, só de sossego. Daí o descanso de esperar o depois.
Em toda a cruzada que houver sintonia, as asas tomarão o rumo que as pernas insistem em travar. E quanto de poesia é preciso pra encostar no travesseiro e pensar nos acasos. Ah, se encontrares de ti quem não seja pergunta, aponta o canteiro florido e te acomoda pra uma prosa.
Se vinte e poucas andorinhas fazem verão, o dobro disso em impulsos de vôo, faz liberdade.
Quando escolheste estar lá, escolhi não ficar aqui. As sintonias seguiam juntas, dissera-me o reflexo que vi na cara que te viu em noite enluarada de um verão atípico. É preciso que se diga em verdade, não eram atrizes. Tiraras de mim todas as máscaras, sem esforço. Assim, pois, desfolhando a cada instante, pus-me despida. Intrigada que estava com tanta estranheza, olhei o relógio e entornei o primeiro gole. Vinte e quatro, dizia ele, o calendário. Vinte e quatro horas depois dos vinte e quatro, nem vinte e quatro segundos bastariam. Disso ainda não sabia, porém. Clichê destorcido.
 Havia tanta fala engasgada, tantos pedaços perdidos. Neste ciclo de renovação e reencontro, tudo houve e foi ouvido. Iemanjá lavou dos pés o que restava de solto. Renasceras em sintonia com o sono velado do dia seguinte. Renasceras com a alma lavada e o coração descompassado, apesar de calmo. Assim anunciou-me Saturno, pai do sol em capricórnio.
Falou quando viu o riso do riso no canto preguiçoso da boca daquele dia. Aberta que estava, maravilhada com a areia sob os pés que presenciavam o primeiro pôr do sol ao nascer do dia.

O riso que é pro Sol

Um riso estranho. Um riso risonho. Um riso congelado, atravessado, certeiro.
Abraçado, invertido, coberto.
Um riso trocado, pintado de cor, um riso do próprio riso.
Um riso de ressaca, um riso de maresia.
Um riso de calor, um riso de mais calor ainda. Um riso de frio.
Um riso que treme, que trava, que escurece, que acorda.
Um riso molhado, gelado, quente, um riso salgado. Um riso de limão, de panqueca, de chimarrão. Um riso de gente.
Riso de erro. Riso de acerto. Riso de abraço, riso de sossego, riso de apreço. De novo, de surpresa, de susto, de medo.
Outro riso.
Um riso inconveniente e vivo, que vem e que ri sem ser convidado a sair.

sábado, 21 de março de 2020

A música é para se cheirar, cheirar é sentir

A música tem cheiro, sempre tive essa sensação. Depois de buscar entender por que, com alguma frequência, alguém me dizia que nem tenho cara de quem ouve música.
O cheiro da música é mais intenso que a maresia de Copacabana e mais suave que o da chuva no pátio de casa em Camaquã. O cheiro da música tem vida e caminha sempre na contramão do previsível. Daí que não tenho nem cara de quem ouve música.
A música tem cara de quem senta pra fumar sozinho, tem cara de quem pinta o cabelo de rosa, tem cara de quem toma vinho acompanhado, tem cara de quem sai de casa de camiseta e tênis, tem cara de quem chega com batom vermelho e a unha feita, tem cara de quem não tem cara e acha que tem.
Eu tenho tantas caras e tenho uma que é todas, menos a de quem ouve música. Porque a minha cara é de quem cheira a música, e quem é que mistura olfato com audição ? Não é quem, mas o que. Nós somos da mesma matéria prima, nós e a música.
Daí que ando imersa em seu aroma, todos os dias. Numa viagem infinita, enibriante e viva. Mas de quem não alcança sequer uma nota musical. Ainda assim sigo o  cheiro, no cheiro, de cheiro e pelo cheiro. Um cheiro que não se pode sentir, se não se entende que toda a energia em desequilíbrio, se desencontra.
Quando ouço, sinto o cheiro do infinito. E o infinito com companhia é tudo o que transforma o cosmo. O cosmo é tudo o que é movido pela fé e se toda a fé tem a ver com o medo, tens que aprender a não temer a misturança.
Somos as pequenas partículas que podem significar sozinhas, mas unidas somos o infinito. Ele, o infinito. De cheiro e de som.
Quando percebemos o estrondo dessa arquitetura sutil, sentimos os amores infindos. São os amores assim, construídos como o véu da noite, sempre depende de onde estamos vendo as estrelas. Podemos amarrar as sensações e perceber que o mais belo está em agarrar-nos ao que se ama. Insistir, e ensaiar a vida com o propósito da teimosia do acaso. Dos amores que temos, não soltemos.
Façamos da rima a sintonia dos pontos de luz que somos, juntos.
Avistamos, à vista, em cada som que cheira, um para-raio em telhado de sólidos. Construído apenas, sobre paredes de essência híbrida.

sexta-feira, 13 de março de 2020

O sol que é cisne

Quando o riso escapa, se solta de si e de tudo o que é pra delinear o descaminho traçado. Percebe-se, pois, que  fluido é tudo o que encontra um caminho de ser, e sólido é tudo o que sem esforço sabe a forma de permanecer. Eis as arestas.
São assim os contos fantásticos da existência dos cisnes. Flutuantes, garbosos, soltos e leais. Os cisnes pertencem-se a si, são donos do seu querer e não lho dividem com o efeito de sentir. A lealdade que neles impera, portanto, resulta da alegria de sempre saber quem são e o que não querem. Porque o seu querer não é bipartido, nem unilateral. São os cisnes, aves galantes, completas em sua essência e prontas pra dedicação integral ao amor. Os cisnes amam o que são, ainda que isso signifique amar avessos. Criaturas encantadoras, acomodam vagarosamente os braços sobre a mesa da varanda, acendem um cigarro e espelham a filosofia de tudo o que é mais belo e sublime, amar os que lhe são caros.
Não há encanto de seres mitológicos nos cisnes, eles são seres reais. Bichos da água, do tempo, do acaso e do solto. Os mais bonitos da sua espécie, porém, moram do outro lado do nosso medo. Criaturas radiantes, estão para o mundo qual o próprio sol. Eles inspiram a coragem de atravessar pontes e túneis, mares de ressaca e noites místicas que antecedem datas cabalísticas.
Os cisnes são apreciadores dos dons. Tudo aquilo que emerge da alma humana, lhes parece nobre e seguro. Carregar um coração que leva dois além do seu, é transbordar de essência magna do ponto máximo de sentir.
Nesse embalo e noutro, mais tarde, quem sabe. Numa manhã ensolarada de uma sexta-feira incomum, tudo o que parecia estranho transmuta em sintonia familiar. Mesmo em silêncio, tudo segue calmo, real e claro. Resultado do sossego, produto do anseio, a beleza de que aqui se fala não equivale a nada, além da simples estrada que leva à liberdade.

segunda-feira, 2 de março de 2020

O velho e o mar de Copacabana



Jogado à toda sorte de sonhos infindos, o velho e o mar de Copacabana cruzavam olhares ausentes um sobre o outro. Era um encontro de água e terra, do fluido e do sólido. Contrariando aos pensamentos de mesmice, o reencontro foi de alegria. Mas eles, confusos que estavam com tanta intensidade no instante do depois, perderam-se um do outro mais uma vez, por ora, a pedido da reflexão.
Sempre que surgem contos sobre as janelas da alma, um novo caminho é interrompido. Apesar disso, o recomeço certo independe da vontade humana de emaranhar destinos. O que vale são os suspiros que promoveram o reencontro de dois avessos filhos do universo, no mesmo sopro infinito. 
Foi assim, que o verão atípico tornou-se o mais perfeito Eden para abrigar as faíscas desse reencontro. Fez chover por inacreditáveis dias seguidos, a fim de lavar e fazer fluir, depois da catarse, os cantares de alegria. 
No íntimo de cada um, uma esperança latente de que solidifique em barro firme. Mas quando estão juntos, temem. Não temem o destino, temem permitir-se a ele. De grão em grão é que são construídos os infindos. Separados, sabem eles, são silêncios que rugem, que se chamam e que se desafiam.
Passam as horas e seguem os dias. O velho olha sem saber que é olhado. O mar ressaca, sem saber que é ressacado. Mais impulso, diz o silêncio. Ao fundo, cantam as ondas dissonoras, dúbias, equivalentes e unilaterais. Apresentam convictas o anunciar de menos um dia, fazendo tremer até a escuridão. 
Tantos passos na areia, mas só dois pés esperando o mar, mais um 
desencontro. A noite tem cara de sopro. Mas carrega em si, apesar do descompasso, faíscas que ainda esperam soltas para iluminar uma nova alvorada no fim do dia.