terça-feira, 21 de maio de 2024

Silêncios que escutam

 Existe um silêncio que as pessoas carregam nos olhos. Um silêncio escandaloso, oblíquo e audaz. Este silêncio é tão surdo quanto aquele que o escuta.

Ouvidos e boca aberta pro mundo, é tudo o que é preciso pra que tenhamos o todo de nós escondido embaixo de nossos cabelos molhados de chuva ou de suor. Eu não sei escutar perfis ideais, só os que parecem confusos e secos. Encharcados de sonhos já idos que ficaram dentro de uma gaveta de meias, esperando o despertador tocar e o silêncio rugir.

Sempre que os silêncios são lindos, não podem ser ouvidos. Mas silêncios distantes estão perto, com frequência, daqueles que fingem que são e sabem que estão, em dimensões além de suas cabeças barulhentas. O silêncio dos olhos deságua em terra firme e traz leitores de mãos e de textos sobre descaminhos ou sorte.

Não és ouvinte, és surdo. Sempre que insistes em deixar esvair nas tuas mãos tudo aquilo que pretendes descascar como nozes. Nós somos o outro do outro e vemos os silêncios de olhos perdidos no avesso de sentidos desligados no disjuntor.