segunda-feira, 12 de junho de 2023

Fronteiriço acaso

 A fronteira da memória é o acaso. O outono adormece e a tua presença renasce envolta em fumaça de incenso e histórias paralelas. 
Mais um texto místico e desestruturado, com destino certo mas sem tempo marcado. Não peço ao destino que descanse, ou que descasque até chegar na flor e te ofereça o perfume teu que vem e vai, emerge, retorna, vem e vai e vai e para. 

Levemo-nos de mãos dadas na água corrente que é doce e que é salgada. Ou então, levemo-nos soltos ao nó do cadarço que prende o sapato que conduz os passos. Descalços, no presente, no passado e no futuro, sempre na contramão do que parece ser, somos agora menos dispersos apesar de acelerados. Sempre alheia a tudo o que lhe parece certo. Incansável, leitora de olhos e de sonhos.

Leio as linhas finas que contornam o teu rosto quando despertas de uma nova noite, porque és feito de barro e isso já basta para que estejas no adorno da minha cabeceira.
Desmonto a estrutura já posta, porque os opostos se distraem e disso bem sei, disso antes já sabes. Sei eu e sabe a canção. De novo ela, de novo ele e de novo o novo que nasce atento aos flertes entre o aqui e o agora.
Entre os fios que tecem a noite, uma lua descompassada aparece por aqui. Nebuloso clima de quase inverno, transforma a flor de verão em cisco de madeira, tão frágil que destila em água doce e deságua aos olhos e aos destinos.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

A parte do todo

 A tua grata presença mística constrói o caminho do encontro. Encanto de sereia é canto de pirata, mas eu te conto baixinho sobre as profundezas do rio que é Rio apenas no nome, pois sua natureza é de lago.

Quem sabe um desencontro, quem sabe onde andas e por onde andaste até aqui e agora. Nem em mil voltas ao sol de capricórnio, poderia supor a tua presença transcendental no meu cotidiano acelerado, para pensar em nomes da terra que só pisaste em pensamento. Penso nos dias de sorte, falo de espelhos, de olhar reflexos e de memórias. Ando, cancioneira e atenta, cogitando sobre a dimensão que estás. Onde estive, não andaste. Procuro, olho nos cantos do ônibus, olho ao atravessar as ruas do centro, olho no meu olho sorrindo e não encontro onde andou tu e a tua grata presença.

Existe uma canção que canta tranquilo como és, de um som indescritível, mas que me confessa em silêncio gritante o segredo do teu caminho. Um retorno, duas voltas, alguns minutos a mais e tropeçam juntos os trapaceiros de Cronos. Herdeiros de linhas universais, caras desenhadas em estações diferentes, não são de fases da lua que aqui se fala, mas de tempos diferentes que refletem no mesmo espelho.

Volto, leio, releio e ressignifico o ponto de partida de risos já idos. Voltar é estar aqui e agora, voltar é deslocar-se acompanhado da sombra e do afago. Mas quem não sabe cantar, dança. Quem não sabe falar que leia, e quem não sabe pedir que ofereça.

Não sei se a tua mão segura regras de tabuleiro, mas vou comigo e deixo contigo o que trouxeste outrora em sensação. Em tudo isso, até pensei na estação de rádio para o antigo novo tempo que nos aguarda. Na previsão do tempo, o sol de inverno. 

Por aqui a lua de morango segue também comigo. Segue contigo e navegamos. Continua, continuemos. Em desafios de linhas entrelaçadas e feição de nós, contigo não há descaminho, contigo há a criação. Desdenho os desígnios das fiandeiras, não vejo fim nem começo. Vejo cenas de uma nova janela que escuta Caetano e que impulsiona melodias que vibram em si, sem nomes próprios derivados de alguma página solta, mas com narrativas compostas de alfabetos inteiros e ainda pela metade.


sexta-feira, 2 de junho de 2023

O ciclo das águas do mundo

 Um lugar vocacionado para os encontros, um colorido cinza mas aceso. Escrever é desfolhar-se, piegas, mas um fato, dizem elas, as muitas de si que estavam adormecidas.

Não há restrição para as águas do mundo.

Tú que puedes, vuélvete, diz a canção. Vuélvete para allá, volta e meia é isso.

Distante, deslocado, suspirante, navegando pelas águas do mundo. E mais um amontoado de memórias escorre pelas mãos, atravessa o corpo e os corpos que não se encontram na atmosfera cíclica de vidas que passam e questionam o quanto de ti em ti está registrado em meio ao caos cotidiano. Distantes, desesperados descansam em terra firme a fim de não desafiar a tempestade. São só montanhas, mas são montanhas de mares, de rios e lagoas e por isso, tú que puedes, pero también tú que no puedes, vuélvete.

Tic-tac, o tempo também esvai no final da tarde de outono em que as folhas não caem em formato de coração. As folhas daqui contornam o chão em que não há ladrilhos, é o chão dos plátanos e dos ipês, é um chão molhado, úmido e fértil ao novo plantio.

Tú que puedes vuélvete, mas não acomoda os braços à mesa só para olhar a janela da rua. Vuélvete tu, não o tempo.

Não sei cantar, nem tocar piano, mas a palavra que salta aos olhos pula também do coração. Não há mais folhas, não aquelas com formas e cheiros que instigam o céu da praia em que o sol nunca se põe. Mas de cá percebe Gaia o cochichar de Cronos e Inti. Geniosos birrentos, motivados ao desafio, jogam dama e apostam naquele que cai primeiro.

Enquanto isso, cochicham. Sugerem campos e canções, sugerem que tú vuélvete, sugerem que tu desmonte. Gaia suspira, Juno convida-a para um chá e assim caem todos nas mesmas águas do mundo que jorram da afluente incansavelmente cristalina e rebelde.