quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Mulher do espelho

 A mulher do espelho quis deixar de ser retrato, partiu a contragosto e foi levada consigo para si. Finge que ri, mostra a covinha, atravessa as dimensões do reflexo e congela. Retorno.

A mulher do espelho materializa o que não quer, sempre que passeia na ponta dos pés pra acomodar o seu incômodo. 

As mulheres do espelho são todas as que habitam os livros, as que protagonizam os próprios destinos e as que solidificam o que querem com a própria graça do seu querer. Quereres que não são bipartidos.

A mulher do espelho não emparelha a sombra, se esconde nela e embala o próprio reflexo em papel de presente colorido para oferecer aos astros quando atravessar o portal.

Todas as mulheres de espelho são soltas. Não prendem nem se fazem prender, ainda que sejam presas pelos próprios fios de cabelo às mãos que lhas seguram cansadas. Santificam espectros que lhas carregam de si, só para confortá-los em troca de seus próprios abrigos. As mulheres de espelho não vêem o que querem, mas vêem a si em tudo o que desenham com seus amores próprios. Enraizadas, as mulheres de espelho são muitas e de todos os lugares, mas sempre pertencerão ao que menos lhes cabe, porque amam. São as mulheres de espelho, legítimas andorinhas. Sozinhas, fingem que rir da própria sorte é a mágica para fazer verão. Acompanhadas, esperam silenciosas pela própria essência de ser forte.

Mulheres de azar, as mulheres de espelho não desafinam, definham flutuando sempre sem pesar.

São mulheres humanas as mulheres de espelho, e não há uma só sintonia velada que lhes passe aos olhos.

As mulheres de espelho, são atravessadas, cadentes e ensolaradas. Sabem chover as mulheres de espelho, porque não faz parte de si o medo do medo de estar com medo da própria morada. Medo divino, antigo e disfarçado, que faz das mulheres de espelho fortalezas de pólen e da fumaça macia de uma última tragada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Gaia e o Marlboro

 A fumaça do Marlboro está na minha janela. Abri, ouvi, despi.

Efêmero, diz a tragada da Gaia. Tudo em sintonia, menos as vontades compatíveis que caminham solitárias.

Nos jogos de acende e apaga, os vagalumes foram extintos, mas ainda há em ti a beleza da graúna. Sempre houve, sempre haverá. Em cada uma de mim, um universo múltiplo e que busca o teletransporte no som do silêncio das avenidas. Barulhos e estalos, atalhos e angústias no meio das vozes sem rosto que chegam também nesta janela.

O Marlboro atravessa o cheiro de maresia e de incenso que chega antes dos meus pés neste terceiro apartamento.

Repete o coração umas batidas desengonçadas. Regulado na preocupação de se manter em sigilo, nunca quis te ocupar, nem o pretende. Aceita, porém, o quanto é difícil não controlar o incontrolável. Desengonçado também é de impulso. Não pode gritar, mas quer falar alto, esquece que o teu não é surdo.

Outro Marlboro, quase te encontro. Não fumo, mas leio a fumaça que mesmo não sendo tua, espectra a tua imagem em fios. Ilude meu senso que te busca num riso que não é teu, e logo se dissolve no vento e some. 

Olho as tragadas, respiro inquieta e ansiosa. Quero a tua permanência longa, mas não te ofereço doses de elixir pra definhar. Aquieto, sossego e adormeço. Se definhares, definho. Dilemas. Desejo de longe que permaneças iluminado e que ouças a voz da Gaia que te diz sobre este fumo, "Efêmero". 

Não temas, mas queiras levantar. Vais tragar o vício, a alegria e o cigarro. Vais deixar passar por ti, todos os que te sugam e os que te calam. Sente a presença do teu Marlboro, qual o faço. Ouve a tua intuição Pessoana, pra saberes o que te cabe e o que te sobra. Nem todas as vozes querem te acalentar, sabes. Mas todos que falam, olham com atenção o teu lugar, lembra-te. Não te recomendo chiclete, mas alegrias. Sabes que ainda não podes, sei que sabes que deves. Resgates.

Vais, olha as cinzas e renasce. Acende o teu Marlboro, limpa o teu cinzeiro e a tua energia. Logo, vais apagar o cigarro e viver em constante sinestesia. Outros caminhos efêmeros te esperam, este não é mais um respiro só teu. Tens agora mais pernas que uma centopéia, mas sempre terás o teu rumo pelo teu próprio coração.

Cigarro acende, ascende a essência. Fica o teu cheiro, espanta  o teu entrevero. Te encontra contigo antes do novo ciclo que chega pra ti. Encosta na tua janela, abre as cortinas, respira sem o Marlboro, olha os risos que são teus e sorri.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Intuição pessoana

Sempre há um equilíbrio entre os desequilíbrios. Partir horizontes com intenção de retorno é confessar que o teu coração não é surdo, ainda que estejas no silêncio dos idos que ainda não foram.
Sabes respirar sem oxigênio, tens as escamas tão duras, que nem de longe te atinge a flecha lançada. Quando és peixe, não cai no anzol. E se em trezentos e oitenta e seis anzóis pudesses ser fisgado, o dobro disso fisgarias sem esforço.
 Se não és de sintonia cruzada, desmente o poeta que canciona contigo quando andas acompanhado. Sempre queres partir, nunca se faz partido. O teu dom de andar inteiro, encanta onde passas e faz de ti o teu melhor espelho. Confia sempre que a tua intuição é pessoana, não imortal. Isso fará de ti poesia, fará de ti desassossego e te trará consolação. Não tens que mudar teus rumos, mas teus arreios. Buscas força no sono que chega navio, nuviado, macio e discreto, quando a força vem mesmo é com o teu broto novo e simplificado. Reúne com os teus que te habitam. Aos que já tomaram a normalidade para si, fala de esperança e de música lenta, fala da solidão com flerte, e da liberdade com o teu olhar enamorado. Nos malabares que conheces, amores infindos te esperam serenos e te guardam amparado.

domingo, 9 de agosto de 2020

A beleza do homem abismo

És de poesia e de abismo, eis que te fala o disco riscado. Não és de enganos, nunca foste. És das narrativas que são tuas, que são autênticas e que são sempre donas do riso que é meu. Vais de encontros, porque és vivo. O que há de verdadeiro em ti, nasce da tua alma andarilha e da tua essência gaiata. Não vais por comando, és de improváveis.
Quantos sons ficaram soltos antes de ti, disso não sabes, nem queres saber, nem o precisa. Importa o que vem adiante, importa quem tens agora, quem dos teus caminha contigo e as contrações que transformam as dores em risos.
Harmoniza as borboletas do estômago, faz a tua sinfonia porque são elas quem seguem contigo. Não vais ser clichê, confio. Teus aliados são cancioneiros, astutos, guerreiros.
Sestroso és tu, mais ninguém. De mimo e de cheiro, és um portal pro cosmos. Sei das águas profundas, ora turvas, ora cristalinas, que tens nas tuas mãos. Sei dos descaminhos, das encruzilhadas, das noites ressacadas. Sei quem estás, de onde vens e pra onde não queres ir. Sei porque sou de salto livre, não porque seja vidente. Sossego nas vibrações de descanso que vem do teu abraço, anseio pelos tempos já idos e pelos cheiros permanentes. Corro presa e me agarro aos cabelos das árvores que falam do lugar de felicidade que existe aqui. São recados que falam sobre as tuas luzes, as tuas armadilhas e a tua transparência. Creio em tudo que é duvidoso, duvido de tudo que é certo. Nada dizes porque de ti já escutei de tudo, em alto e bom silêncio cancioneiro que chega na minha janela todo o segundo dia de cada mês. Sei que és de infinitos, de óbvios, de atípicos e de faísca de incêndio. Derreto, porque sou gelo firme. Se redobro a aspereza, desmancho sempre em maravilha toda vez que vejo o abrigo que mora na casca de bergamota temporona que tanto gostas de exibir. 
Sempre que víris no espelho os olhos de jabuticaba ou aqueles que são da cor de chuchu, lembra-te que a beleza do mundo nasceu de ti e vive contigo em todas as casas pra onde vão os teus pés.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

O amor mora em Copa

O amor mora em Copa. Encontrei-o numa esquina, numa encruzilhada e num precipício conduzindo à contramão. Numa noite em que estava faceiro, quis-me convidar pra sua imensidão. Quando aparece, chega ligeiro e disforme. Dizem-no estranho, porque foge do padrão. Nele falta pedaços, mas sempre sobra coração. É feito de matéria desenraizada, sabe desfolhar no outono e florescer no verão.
O amor mora em Copa, cabe na folha da árvore e no encontro genuíno com a própria solidão.
O amor que mora em Copa é redentor e simpático. Hoje conduz o próprio caminho, faz nascer o sol ao final do dia e desperta o poente em plena madrugada. Ele é um amor assistemático, não é levado no choro nem busca resolução. O amor que mora em Copa existe na contraluz, na capa de chuva e na janela que se abre ao som de blues. O amor que mora em Copa é filho de Oxum, cuida dos seus espelhos e guarda consigo as chaves das sensações. O amor que mora em Copa não é vaidoso, não se alimenta de flechas lançadas, nem de lamparinas ligadas no disjuntor. O amor de Copa é o reflexo que aparece mesmo em água barrenta. Ele habita rios e mares, casas vazias e madrugadas salutares.
É o amor de Copa um inconstante, incessante, permanente e de união.
O amor de Copa alcança as palmeiras nas sacadas, desloca a impaciência e acomoda a sua magestade.
Nunca quis reencontrar o amor de Copa, agora nunca quero deixar de sê-lo. O amor de Copa é espelho. Translúcido, sabe que não é passageiro. O amor de Copa é de pontes, de túneis e de avenidas. 
É o amor de Copa um amor do mundo, do Sul e do Norte.
O amor de Copa não é aquele que espanta, porque o amor de Copa se compraz na própria essência de ser forte.

Lar da namoradeira

Namoradeira na janela serve a água do chimarrão. Ensaia o salto, faz que ri, se molha e recua. O acaso é um destino. A namoradeira é ressabiada, não mergulha em água rasa porque é faceira em solidão. Ela usa fita amarela no cabelo, carrega uma estrela em cada orelha e luminárias no coração. A namoradeira toma chá de cidreira pra adormecer, adormece e sonha vendo que o mundo acordou mais passível a florescer hoje, do que ontem. Namoradeira é bicho de pelo duro e flor de pessegueiro. Ela sente o vento levar os cabelos, deita na areia e sorri, em dia de Sol e em dia nublado. Se perfuma pra sair, é cheirosa pra chegar, porque olha o caminho.
De novo na janela, casa de alma da namoradeira. Espiou as constelações e viu nelas infinitas linhas marcadas. Tênues e antigas, eram linhas enamoradas. Contou os vagalumes e pensou no retorno, mas sua única volta era pra onde está agora. Lar da namoradeira não é mais a terra de ventania, porque a namoradeira não sabe ser metade. Deitada, distante de todos e do que antes lhe pertencia, confusa entre pele e vestido azul, ela ouve o som do piano que vem de uma janela ao lado. Acomoda os pés entrelaçados, olha o céu e soluça. Mas o choro da namoradeira não tem som nem pesar, ele é feito de lágrima de sereia e rememora o inverno na pampa descampada.
De novo na janela, por regalo da cigana descansada. A namoradeira é risonha e carrancuda, a cigana não sabe que ri. Engole o riso e o soluço. A namoradeira não sabe nada além do que disseste , além de quando lhe disseste que é ela a "hippie do ri".
Descansa a namoradeira, não quer mais ausência de melodia ou onda dissonora. Acomoda os braços, devolve ao Rio tudo o que não é de água e sorri.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Guardião do espelho

O plural que era o homem sentinela, era sentido há quilômetros de si. O homem atravessado, atravessava quantas fossem as ruas necessárias pra encontrar o que precisasse ser curado em ti. Daí a confusão. Ele era espaçado, desatento e honesto. Via tudo e não sabia sentir, engolia sozinho o que não era só pra si. Daí a solidão. Pensava que os hiatos eram pregos, que fixavam-se sem pretensão de largar. Quisera ele soubesse, que tudo era pouco e que o pouco era muito, se quisesse  ler estrelas. Sorria impaciente e pensava incomodar, porque se incomodava. Mas o homem multiplicado era farol e não ilha inóspita. Talvez por isso, todas as vértices de suas certezas pareciam carregadas dispersas, pra formar juntas a sua estirpe de realeza. O que lhe havia de nobre morava em seu pouco, em sua habilidade em não alimentar excessos. Não que fosse de equilíbrio, porque nem o era, nem o queria ser. Mas a sua existência era prumo. Sem ela, não soariam os sinos, nem nasceriam os rios, nem cresceriam os limos, nem uniriam-se as cores. 
Sem a sua existência, não haveria calor, nem saudade, nem utopia, menos ainda realidade, menos ainda o amor, o genuíno amor.
A sua múltipla existência era o que enraizava a cicatriz, essa e outras, todas as tantas que já não se podia ver. Era de suas falas que vinha a chama, são de suas luas que vem a cigana. Que são reflexos de outono, que vem das águas etéreas. 
O homem do mundo é antes de ti, antes de mim, antes de nós e nunca de ninguém, além de seu próprio.

sábado, 30 de maio de 2020

Um dia que reflete o outro, que reflete este

Uma soma de estrelas, uns tais descaminhos, portais que cintilam mesmo quando pareces estar sozinho. A nós, são apresentadas paredes inteiras de espelhos, num rumo de cacos que remonta a narrativa de quem somos e de onde viemos.
Amanheceu quentinho o dia, sem chamados para dimensões alheias de distopia. Ouço a correnteza de vento e caminho na tua direção pra chamar-te de novo ao feixe de luz que vem da calmaria. O dia anunciou outro novo dia. Outro além deste, outro que se reinicia, outro que antes apenas partia. Levo um pedaço do sol comigo, levas outro contigo, aquecemos os sons da vida e partimos. Aceitamos cada vinte quatro horas, cada vinte e quatro metros abaixo do nível do mar, aceitamos com a condição de ambos seguirem vivos. Seres atemporais, repetimos.
Nem toda a partida fala de ausência, mas toda ausência fala de retorno. Por ora, por necessidade de imersão ou por rebeldia. Recarrega e reflete a tua energia. Depois, costura a brecha e volta.
Não escrevo sobre partituras, nem partículas ou profecias. Confuso a fala como conduzes os teus dias, então regressa contigo e não empaca, vais estar sempre além do perigo. Atenta quando olhares ao longe, tens o sinal de que ainda firme sei ler o teu sexto sentido.

No reflexo de chuva e Sol é o paradeiro da cigana

Se perguntares onde anda a cigana, te digo que vai protegida de ti e do teu carnaval. Se procurares onde anda a cigana, amigo, aves malandras não são de Pombal. Vestida de rugi, cospe marimbondo quando cai o Sol. Sabe do risco, adianta o bochincho e corre na direção do banhadal. Pula arapuca de saia pra te alcançar, porque sabe de ti que és emocional. Quanto achas que és de perigo, se nem sabes desviar da espiral. Ora, bombeia só!
Que não seja a tua imagem um espelho, a menos que queiras queimar numa pira comigo e o meu batom vermelho. És de incêndios, não de fogueiras. Bem o sei.
Dobro a aposta se não perderes teu tordilho quando me desejas mal.
Risquei o fósforo e só saiu faísca, guardei o cachimbo e fui bailar. Não andas comigo, porque sou teu perigo, dizes. Malandro bonito, sou eu contigo quem vai se cuidar. Trovador aguerrido, nem és de grunhido, que queres inventar ?
A chuva não molha o terreiro quando a figueira é fechada, saibas.
És de meia hora e outros tempos, tolos temperamentais e bruxos desatentos. Ciganas que pintam celeiros, tropas de nefelins e asiática turca que é meretriz. Nada do que não saibas, nada do que não queiras e que não tenhas vivido. Queres nada, e recebes de tudo. Quero muito, e sou moribundo. Distópicas ironias, somos. Mas do pouco nasce a flor de mandacaru, nasce do incêndio e do terreno que nada tem de ungido. Nasceram com elas, outra vez, as luzes mistas e o fim de tudo o que se havia perdido.
A cura é reflexo de chuva e sol na água rasa da taipe de açude. Sossega e dorme tranquilo, porque vais entrar sem chuvisco, nem guarda-chuvas de Pompadour. Na vida de agora, não vais mais na direção da correnteza, ainda que queiras, não enveredas mais na contramão.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Espelho atemporal (poesia do que não se vê)

A poesia está no ser e naquilo que o ser reflete ter sido. Do sujeito que deixa parte de si, um achado virou poesia em duas linguagens. Dualidade pouca é bobagem muita, mas disso nem sempre se está atento pra enxergar. Do que foi perdido ou ficou abandonado, quem foi o senil desatento, genioso e sem rosto, que deixou matéria-prima tão rica no cenário do sol entardecido daquela quinta de primavera embalsamada. Deixou à mercê doutros desatentos, que não sabiam sequer fazer do isqueiro uma arma de sutileza emprestada. Tudo vira representação do real quando a realidade se faz nítida e pede pra ser flagrada.
O dono do cigarro e do isqueiro talvez os esteja buscando, como buscava saciar-se no vício quando montou seu kit de sobrevivência pra estrada. Sobrevivência ou fuga, tecidas como sinônimos no rumo dos andarilhos, aqueles que vestem a túnica e se embriagam no que é fugaz e inevitável: a vida.
Quem pensa na fuga é filho do descaminho, diria o poeta se aqui estivesse, mas ele foi pra longe buscar a realidade noutras sombras.
Pude ver a fumaça viva naquela bituca mórbida e apagada. Podia ver o dono com ele entre os dedos. Distraído, peguei-o meditando nas vaidosas formas daquela efêmera e autêntica tragada. Ficamos ali mais que alguns minutos, assistindo ao espetáculo da luz refletida naquela posse de alguém que estaria, quiçá, liberto.
Teria o dono perdido seus pertences a um propósito, encontrar-se - pensei um tanto contemplativa. Ficamos, então, emaranhados nas incógnitas que só seriam desvendadas se acendêssemos o cigarro, mas não o fizemos. Pra isso, precisaríamos da digníssima vaidade de sermos os soberanos donos ou, seus apossados. Nosso caminho, porém, era outro. Quem sabe pro entardecido sol de uma quinta de inverno, num tempo paralelo a este, apresentado a mim numa imagem disforme e encomendada por um ideal de muitos: o dono está na companhia de seu cigarro.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O leitor de Espelhos

Os ciscos que parecem próprios de migalhas da estação são semelhantes àqueles que se vê num salto de paraquedas.
Quando abriu-se a janela e as bergamotas viraram poesia, abri a página de escrita em que o dono das palavras estaria mais uma vez presente.
Não sabe por que de ti transcrevo tanto, diz a minha destreza pra fazer o tema contigo ao lado. Questiona que se sou redatora, se sou irreal e se sou impostora, não deveria saber ler tanto. Mas as inquietudes são antes de natureza tua, e por isso, não vos aflijais. Escuta sempre o silêncio ensurdecedor das palavras que te chegam, vais progredir. Se estou suspensa em meditação ou corda, te alcanço pra te alcançar o antídoto. Ora, não és de cura, és de escrita, dirás. Sou de antídotos, te digo.
Vais questionar, pudera, quem de ti percebe o raso e o fundo nem sempre é o teu eu dominante. Vais suspeitar que a doçura tanta é camuflagem muita, pra que Dalila corte a força de Sansão tão logo ele a receba. Sossega. Olha com o desdém que ainda não tiveras, se puderes. Enxerga as imperfeições de quem pensas elevar-te ao pedestal de uma divindade. Não sabes nada além do que o espelho te mostra, aí mora o teu perigo e o teu afago. Pensa, se é espelho é espelho. Reflete a tua cura, pois. Nesse sentido, não tens que buscar nada além do que te habita. Te conheces, te alimentas todo dia, te clareia e te escureces, sabes do que precisas pra soltar as tuas asas de arcanjo terrestre e planar pelos vales donde semeaste o melhor de ti. És terra fértil sem precisar de chuva, e não sou eu quem digo, fala contigo o teu reflexo todo dia e nele não há falso profeta que viva em permanência infinita.
O homem duplicado de Poe não lho temeria, diria que és tão tolo quanto ele, mas podes escolher ouvir a sereia de Esther, Scliar é mais cancioneiro quando fala dos duplos. Na fala de muitos pegue o terceiro viés, fale a Borges que a tua Estela também é a dele e questione-o sobre o caminho.
Mas nem a literatura, nem o oráculo, nem a cigana, nem a astrologia, tampouco a ciência, nenhum destes será tão preciso no acerto da dose do teu antídoto quanto este teu, o que vos fala: espelho.
Nele não há generosidade ou superestima, não há embaço, não há neblina, há reflexo. E o que há de ser, há de ser. Vieste ao mundo pra ouvir de ti quem és, não do outro, nem da outra, ou de outrem.
És quem sabes ser, tens o que podes ter e se queres, queres. Quanto de mais belo pode haver nisso? Pois te basta ser o andarilho dos trilhos da estação da luz, te basta ser aquele que é poucos, e que vive muitos. A ti basta ser, sobretudo, o que sabe ler espelhos.

Espelho 236

Quando segurares o espelho, agarra-o firme na tua mão pra não correres o risco de perder o reflexo.
A tua imagem de caos é a mesma minha e a tua imagem de equilíbrio vem de mim. Espelho e reflexo são complementares, daí que um não espelha senão o outro.
Mas tens sempre cuidado, porque o espelho não reflete o que queres, lembra-te disso com ternura, porém. Ele reflete o reflexo de quem o segura agarrado, e não vai soltar até que o aceites com olhos que veem sem o véu da vaidade. Quando assim o fizeres, em ti não chegará mais o espanto que traz o embaço. É preciso que recebas o espelho que te oferece o Aqueronte. Este, é o único capaz de falar-te da forma que a vida tem de pôr no rosto uma cara que a alma desenha. Agora, olha tranquilo os ares daquilo que vem, não te apieda de quem sequer sabes que és. Antes, saibas, se o espelho quebrar, ainda terás o mesmo reflexo nos cacos. Com a condição, apenas, de dimensões menores e de ângulos que ainda não tinhas visto.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Espelho, Espelho Meu!

Espelho que reflete as doses homeopáticas de sintonia cruzada, existe alguém mais inteira do que eu?
Abacaxi ou granada, é o que compõe as incansáveis distopias da noite que logo seria página acrescentada. No livro que se constituí em ritmo de grão em grão, toda página que vem não é virada, é acrescida e cuidadosamente organizada conforme a necessidade da ordem de ser rememorada. Na memória, porém, o que chega é sempre eleito pela seleção da nossa vontade. Sempre disposto de acordo com a tua vaidade, se ausente ou não, não há perspectiva que possa competir com a vontade. O querer é sempre senhor de si. Quando queremos e escolhemos o que queremos, transformamos o que tem que ser em algo feito do nosso jeito. Do contrário, quanto de nós deixamos de encontrar no que ocorre porque precisa ocorrer, mas que ocorre alheio a vontade daquele que ainda está submerso em marasmo? E este contrário, é feito de insatisfação, de inquietude e de aflição. Se há de ser, há de ser. Não há fuga possível, nem perspectiva mutável. Há o que é, e isso não se discute. 
Quando aprendemos a perceber as possibilidades e as necessidades de fazer ser de nós o que há de ser, a varanda vira pista de dança, e a janela é o aconchego ou o convite pro "mistério infinito de tudo". O segredo que chega com o relâmpago do tempo que virou no repente. Tão repentino que é feito de faíscas, estreito em suspiros e dominante do indomado com uma só mão. Os sustos já não assustam, e a chuva só assiste. Maravilhada, deságua desabando a matéria da imensidão. Molhada, encharca a terra seca que só andava aquecida no sol de verão.
A chuva é o equilíbrio. Veio porque havia necessidade de lavar, de levar e de elevar o que sempre foi genuíno. As canções que transbordam são as mesmas, de sons transpirados. Aqueles, os que coordenam um ritmo desajeitado e impreciso, mas sempre junto, fazendo barro virar argila pra transformar em obra prima aquilo que parecia desgastado. Descansa, retoma e refaz a arte. Disso tudo, novas doses homeopáticas chegam sempre que se precisa lembrar.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Sobre a Intensidade

Os raios que insistem na fluvialidade ainda são intensos. Em meio às nuvens desenhadas como propositais pra serem sentinelas, os fios de luz que lhas transpassam são ainda enérgicos e direcionados. Nenhum acaso é mera magia ou encanto, todo o pontilhado tem uma linha que liga cada ponto ao outro.
Nesse caso, se não perceberes que venceste o bloqueio, te levo carregado e te ensino a desvelar o oculto. Não eu de energia mortal, mas eu de energia vital.
Eu que carrega os dons de ser abacaxi ou granada, quente ou fria, todas as fichas ou nada. Essa Eu de calibre alto, de fala estridente, essa Eu alcalina e volátil.
Nunca trouxe amor de volta em três dias. Fui atenta pra trazer o amor de volta em três voltas, isso sim. Vou e volto, busco de novo e mais uma vez. Não é lábia profética, é sincronia antiga de coragem pouca e vontade muita. Trago o amor de volta do poço do submundo na base do anestésico, pra lhe poupar a dor de ver o caminho percorrido por besteira. Não se poupa amor, se poupa o amor. Na poupança de quem economiza desde que viu reflexos de possibilidades, nunca falta saldo. Cresce o débito na medida em que o coração amolesce. Mas sobe o crédito se o fizeres por vaidade ou por gosto. Saibas, pois, que a economia do amor precisa ser feita na abundância do cuidado metafísico. Cuidado que apara arestas, que deixa fluir do tempo os raios necessários pra encontrar a alvorada outra vez aberta.

Metorfose

Não soube trazer o amor de volta em três dias, entendeu seu pouco talento pra cartomante e partiu.
Hoje está em lugar algum. Tentou e falhou, falhou e tentou de novo. Na cidade maravilhosa, o chão de ladrilhos vai até onde seus pés não alcançam. 
Continua.
Impaciente, acende o cigarro que não vai fumar, senta no cordão da calçada e joga outra vez os dados. 
Espera.
Outro casulo, borboleta ou mariposa? Não sabe, nem quer saber. Outra janela, viste ? Sempre elas. Janelas da alma, toda vez que sorri. Por isso adora janelas, é seu fraco, nem o sabia.
Agora sabe.
Vai escrever de novo. Sorte no jogo de dados, nem questiona. Outro texto, mais janelas. Menos cordões, nenhum cigarro.
Prepara os dados e joga outra vez. O olhar é oblíquo de novo, novo resultado. Agora questiona.
Sentada, não sorri.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Espelho

"Meu espelho é labirinto" disseste alertando-me.
De seus reflexos, porém, vejo temperança, força, e ensolarada coragem de quem vive os cliclos. Não carrega o clichê da fênix, mas de hora em hora se reinventa, se reconstrói, se escalda, se alivia, e me liberta. Um sobrevivente sempre disposto a estar morto, é genioso e cheira a incenso. Intenso, um sol audacioso. Não se limita, e jamais imita. Irrita, quase sempre por falta de querer o contrário. Está sempre aceso e nada gentil, mas é feito de água, de melodias, de pólvora e de isqueiro. Nunca é o mesmo, também não é muitos. Com sutileza e cuidado, sempre é os seus e é o único. O que faz dele novo a cada instante, 604 pessoas em si, quiçá o dobro disso. Nunca foi de algodão, tampouco de penugem. Ele é o tecelão de suas virtudes, bem como das curvas em que não se prende a crenças nem a cruzes.
Autêntico, é um sol de gente. Quântico, desconhece o caminho que fez a serpente. Mas do Éden herdara a verdade. Daí que não se reprime, não agoniza, nem se exime. Impera totalidade, mas não esnoba quando encontra sintonia, ainda que pareça tarde.
É feito de afagos, mas alimenta incêndios, não fogueiras. Se reflete no céu de outono, o mais bonito do ano. Dispensa represas e não se dissolve no tempo. Antes, porém, solidifica e liberta o que já não serve.
Não se perde, nem faz perder. Transgride, emerge, resisti. Suspira, porque é vivo. Respira, porque é livro. Transcrito de várias formas, é casa e casulo, sempre borboleta, é tudo.
Para a escrita é sem fim. É vertente rica, porque segue no curso sem asas de mariposa ou de querubim. Não é caído, é cadente. Acende, porque é ascendente. 
Tal como as sensações que chegaram com o sol, quase sempre incertas, pulsantes e feitas de sorte.
Todo o imaterial que alegra o coração que expande, por si já explica que é gigante. Compõe-se de angulosas formas tridimensionais que irradiam ondas de uma teimosia e nobreza que é secular.
Com o novo, de novo, se encontram os avessos Rio's. Transbordam, esquecem os diferentes mundos que habitam e fundem-se em superfícies futuras de astros reerguidos, cintilantes e calmos.

domingo, 26 de abril de 2020

O riso que é texto

As vertentes cósmicas são pedaços do infinito, que estão espalhadas à espera de quem as encontre. Eis a beleza translúcida que encontras quando olhas com cuidado pras faces do riso que tens e dos que espelha. Repara, o riso é a janela da alma. Não os olhos, o riso. E em toda a estrada em que o riso se cruza, emergem escritas de inspirações milenáres. O bônus dado pela percepção, está em nós como o sopro matutino de quem acorda. Mas não tão simples, está sob a guarda de um véu alado, cuja chave está na dose exata de sensibilidade, cultivada em terra que é fertilizada sob a luz do sol. Ver o riso é generosidade do cosmo, que adorna o ser mutável, este que exala leveza de um ângulo belo e único.
Aquele que explica o que escreve, metafísico por natureza, não o faz por vaidade, mas por cuidado. E se todo o zelo é matéria de amor, liga o teu coração na voltagem máxima que tens em ti e vai. Lembra-te, quem sossega, encontra, e quem encontra, sossega.
Todo o riso é uma vertente. Cada riso, porém, é também um potencial remetente daquilo de que está cheio. Remeteras a genuína essência da cor púrpura: transmutação. Tens em ti matéria de sonho e de lucidez, ressoas na delicadeza e na força. Energias que se complementam, toda a força que não se compraz na delicadeza, não é duradoura. A recíproca contrária aqui, não é coincidência mera. Porque é de equilíbrio que se alimenta a claridade da existência.
E assim, quando puxa um riso o outro, ao outro, do outro, com o outro, a sintonia risonha canta o alvorecer que chega manso e afeito a tudo o que trouxer e levar da vertente à fonte da vida.

Poema em chamas

Cigarro, acende,
Estrondo
Estranho, ascende, cintila
Exala
Explode.

No meio das luzes, o Sol.
Set dele.
Setenta e quatro, em tempos de frio.
Havia luzes coloridas por toda parte
Lá, aqui e de novo outra vez
o teu brilho se funde na camisola de cetim transparente e aquecida

És feito de canções 
De efeitos sincrônicos e de sensações
Avessas,
Sensações.

Cigarro, acende
Exala, surpreende
Cigarro,
que és quente
Aquece, difunde
Confunde e sorri.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Poema ensolarado de abril

Tum, Tum!
No 604 te acompanho
Chuvosa.
Te ganho, no 604
 o dia vai raiar
Duas batidas do despertador
No 604, o que não tem volta
Volta.

Quantas voltas darás até chegar de novo,
no 604
Da cruzada de número quinze,
nascem os dois sois que apontam no horizonte ímpar 
Do ano par
No 604, cintilante e tolo
Me espera, supera e sorri.

No 604 da cruzada do quinze
Não há desencontros,
nem acasos.

No apartamento de número 604
A metade de vinte dobra em vinte, pelo vinte do vinte de dois vintes de somas sintonizadas.

Na varanda do 604
O homem nublado, que é Sol,
e que ilumina os quatro cantos
Além daquele 604 e de todos os aléns que pode pensar que é.

domingo, 22 de março de 2020

15, a mulher que escreve

A mulher que escreve, escreve porque é muitas. Escreve porque é uma e porque não cabe em si, ainda que anseie. Escreve pra outras e pra outros, sobretudo, escreve pra si. E isso bastaria, não fôssemos nós demasiado humanas. Filhas de Saturno, de Iemanjá, de Gaia. Amantes, amadas. Tendenciosas naturalmente a duvidar de tudo o que é bom ou raro. Incansáveis de teimar, teimosas por tentar. Sempre sóbrias, sábias, fortes e líderes.
Porém, sossega. Nada teme, nunca descansa, até que tenhas posto de ti pra fora tudo aquilo que sabes precisa desfolhar. Nada teme, nunca descansa, até que entendas que és guria gentil, calma e te é permitido também sonhar.
Se sente, fala. Se cala, ouve o silêncio. Sê, pois, liberta de ti. Das tuas obrigações, da tua mesmice. Descansa de ser quem sempre busca, espera em sossego pra seres buscada. Faz disso, mais um tema de escrita. Porque bem sabes, nenhuma é vã. Se refletes, é porque precisas.
Então vai, recolhe as tuas asas. Acomoda os teus pés na areia e permite ser pela onda lavada. De novo, aprende em noite enluarada: deixa de ser quem busca, aprende a seres buscada. Segue o teu caminho sem direção certa, mas sempre inundada na certeza do que não queres pra ti e assim, não te perdes no traiçoeiro da tua mente.
Continuas a ser leve, e assim, leve serás pela tua essência fluida e tranquilamente, levada. 🦋 15

O mar de Copacabana

Noturno, um mar de muitos.
Mar de mitos, de mistos
De magos.
Um mar de cheiros, de enchentes
De sopros.
Um mar de autênticos, de clichês
De poucos.
Um mar de algemas, de vôos
De loucos.
Um mar de sono, de lucidez
De insanos.
Um mar de permanência, de sensação
De novo.
Um mar de anseios, de receios
Um mar de imensidão.
Ora bravo, ora manso
Um mar de descanso.
Um mar ressacado, enamorado
Um mar em construção.

Encontro no pôr do sol ao nascer do dia 20

Os olhos que te olham também espelham aquela que pensa sobre tudo. Sobretudo, nada.
Não há desencontros, diz-me o desconcerto. Não há caminho, diz-me o sopro do instante. De planejamentos viramos pedaços incompatíveis, daí a pressa de experenciar o agora. Nada de impaciência, só de sossego. Daí o descanso de esperar o depois.
Em toda a cruzada que houver sintonia, as asas tomarão o rumo que as pernas insistem em travar. E quanto de poesia é preciso pra encostar no travesseiro e pensar nos acasos. Ah, se encontrares de ti quem não seja pergunta, aponta o canteiro florido e te acomoda pra uma prosa.
Se vinte e poucas andorinhas fazem verão, o dobro disso em impulsos de vôo, faz liberdade.
Quando escolheste estar lá, escolhi não ficar aqui. As sintonias seguiam juntas, dissera-me o reflexo que vi na cara que te viu em noite enluarada de um verão atípico. É preciso que se diga em verdade, não eram atrizes. Tiraras de mim todas as máscaras, sem esforço. Assim, pois, desfolhando a cada instante, pus-me despida. Intrigada que estava com tanta estranheza, olhei o relógio e entornei o primeiro gole. Vinte e quatro, dizia ele, o calendário. Vinte e quatro horas depois dos vinte e quatro, nem vinte e quatro segundos bastariam. Disso ainda não sabia, porém. Clichê destorcido.
 Havia tanta fala engasgada, tantos pedaços perdidos. Neste ciclo de renovação e reencontro, tudo houve e foi ouvido. Iemanjá lavou dos pés o que restava de solto. Renasceras em sintonia com o sono velado do dia seguinte. Renasceras com a alma lavada e o coração descompassado, apesar de calmo. Assim anunciou-me Saturno, pai do sol em capricórnio.
Falou quando viu o riso do riso no canto preguiçoso da boca daquele dia. Aberta que estava, maravilhada com a areia sob os pés que presenciavam o primeiro pôr do sol ao nascer do dia.

O riso que é pro Sol

Um riso estranho. Um riso risonho. Um riso congelado, atravessado, certeiro.
Abraçado, invertido, coberto.
Um riso trocado, pintado de cor, um riso do próprio riso.
Um riso de ressaca, um riso de maresia.
Um riso de calor, um riso de mais calor ainda. Um riso de frio.
Um riso que treme, que trava, que escurece, que acorda.
Um riso molhado, gelado, quente, um riso salgado. Um riso de limão, de panqueca, de chimarrão. Um riso de gente.
Riso de erro. Riso de acerto. Riso de abraço, riso de sossego, riso de apreço. De novo, de surpresa, de susto, de medo.
Outro riso.
Um riso inconveniente e vivo, que vem e que ri sem ser convidado a sair.

sábado, 21 de março de 2020

A música é para se cheirar, cheirar é sentir

A música tem cheiro, sempre tive essa sensação. Depois de buscar entender por que, com alguma frequência, alguém me dizia que nem tenho cara de quem ouve música.
O cheiro da música é mais intenso que a maresia de Copacabana e mais suave que o da chuva no pátio de casa em Camaquã. O cheiro da música tem vida e caminha sempre na contramão do previsível. Daí que não tenho nem cara de quem ouve música.
A música tem cara de quem senta pra fumar sozinho, tem cara de quem pinta o cabelo de rosa, tem cara de quem toma vinho acompanhado, tem cara de quem sai de casa de camiseta e tênis, tem cara de quem chega com batom vermelho e a unha feita, tem cara de quem não tem cara e acha que tem.
Eu tenho tantas caras e tenho uma que é todas, menos a de quem ouve música. Porque a minha cara é de quem cheira a música, e quem é que mistura olfato com audição ? Não é quem, mas o que. Nós somos da mesma matéria prima, nós e a música.
Daí que ando imersa em seu aroma, todos os dias. Numa viagem infinita, enibriante e viva. Mas de quem não alcança sequer uma nota musical. Ainda assim sigo o  cheiro, no cheiro, de cheiro e pelo cheiro. Um cheiro que não se pode sentir, se não se entende que toda a energia em desequilíbrio, se desencontra.
Quando ouço, sinto o cheiro do infinito. E o infinito com companhia é tudo o que transforma o cosmo. O cosmo é tudo o que é movido pela fé e se toda a fé tem a ver com o medo, tens que aprender a não temer a misturança.
Somos as pequenas partículas que podem significar sozinhas, mas unidas somos o infinito. Ele, o infinito. De cheiro e de som.
Quando percebemos o estrondo dessa arquitetura sutil, sentimos os amores infindos. São os amores assim, construídos como o véu da noite, sempre depende de onde estamos vendo as estrelas. Podemos amarrar as sensações e perceber que o mais belo está em agarrar-nos ao que se ama. Insistir, e ensaiar a vida com o propósito da teimosia do acaso. Dos amores que temos, não soltemos.
Façamos da rima a sintonia dos pontos de luz que somos, juntos.
Avistamos, à vista, em cada som que cheira, um para-raio em telhado de sólidos. Construído apenas, sobre paredes de essência híbrida.

sexta-feira, 13 de março de 2020

O sol que é cisne

Quando o riso escapa, se solta de si e de tudo o que é pra delinear o descaminho traçado. Percebe-se, pois, que  fluido é tudo o que encontra um caminho de ser, e sólido é tudo o que sem esforço sabe a forma de permanecer. Eis as arestas.
São assim os contos fantásticos da existência dos cisnes. Flutuantes, garbosos, soltos e leais. Os cisnes pertencem-se a si, são donos do seu querer e não lho dividem com o efeito de sentir. A lealdade que neles impera, portanto, resulta da alegria de sempre saber quem são e o que não querem. Porque o seu querer não é bipartido, nem unilateral. São os cisnes, aves galantes, completas em sua essência e prontas pra dedicação integral ao amor. Os cisnes amam o que são, ainda que isso signifique amar avessos. Criaturas encantadoras, acomodam vagarosamente os braços sobre a mesa da varanda, acendem um cigarro e espelham a filosofia de tudo o que é mais belo e sublime, amar os que lhe são caros.
Não há encanto de seres mitológicos nos cisnes, eles são seres reais. Bichos da água, do tempo, do acaso e do solto. Os mais bonitos da sua espécie, porém, moram do outro lado do nosso medo. Criaturas radiantes, estão para o mundo qual o próprio sol. Eles inspiram a coragem de atravessar pontes e túneis, mares de ressaca e noites místicas que antecedem datas cabalísticas.
Os cisnes são apreciadores dos dons. Tudo aquilo que emerge da alma humana, lhes parece nobre e seguro. Carregar um coração que leva dois além do seu, é transbordar de essência magna do ponto máximo de sentir.
Nesse embalo e noutro, mais tarde, quem sabe. Numa manhã ensolarada de uma sexta-feira incomum, tudo o que parecia estranho transmuta em sintonia familiar. Mesmo em silêncio, tudo segue calmo, real e claro. Resultado do sossego, produto do anseio, a beleza de que aqui se fala não equivale a nada, além da simples estrada que leva à liberdade.

segunda-feira, 2 de março de 2020

O velho e o mar de Copacabana



Jogado à toda sorte de sonhos infindos, o velho e o mar de Copacabana cruzavam olhares ausentes um sobre o outro. Era um encontro de água e terra, do fluido e do sólido. Contrariando aos pensamentos de mesmice, o reencontro foi de alegria. Mas eles, confusos que estavam com tanta intensidade no instante do depois, perderam-se um do outro mais uma vez, por ora, a pedido da reflexão.
Sempre que surgem contos sobre as janelas da alma, um novo caminho é interrompido. Apesar disso, o recomeço certo independe da vontade humana de emaranhar destinos. O que vale são os suspiros que promoveram o reencontro de dois avessos filhos do universo, no mesmo sopro infinito. 
Foi assim, que o verão atípico tornou-se o mais perfeito Eden para abrigar as faíscas desse reencontro. Fez chover por inacreditáveis dias seguidos, a fim de lavar e fazer fluir, depois da catarse, os cantares de alegria. 
No íntimo de cada um, uma esperança latente de que solidifique em barro firme. Mas quando estão juntos, temem. Não temem o destino, temem permitir-se a ele. De grão em grão é que são construídos os infindos. Separados, sabem eles, são silêncios que rugem, que se chamam e que se desafiam.
Passam as horas e seguem os dias. O velho olha sem saber que é olhado. O mar ressaca, sem saber que é ressacado. Mais impulso, diz o silêncio. Ao fundo, cantam as ondas dissonoras, dúbias, equivalentes e unilaterais. Apresentam convictas o anunciar de menos um dia, fazendo tremer até a escuridão. 
Tantos passos na areia, mas só dois pés esperando o mar, mais um 
desencontro. A noite tem cara de sopro. Mas carrega em si, apesar do descompasso, faíscas que ainda esperam soltas para iluminar uma nova alvorada no fim do dia.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

As três fábulas da existência

Nas três fábulas da existência, a poesia dos que já foram faz das suas sementes a gênese do saber genuíno. Pros que ainda caminham, os grãos de areia definem o infinito que ainda lhes falta.  De falta entendem os que morrem, os que vivem e os que se dizem andarilhos dos dois mundos. A natureza do homem é estar no domínio, a sua escolha é estar ausente. Daí que sabendo sobre isso e sobre tanto mais quanto se possa imaginar, ele caminha sem pisar no chão toda vez que se recusa a olhar pro espetáculo que deveria estar aplaudindo. Buscamos sentir a troca de ciclos. Sedentos, nem sabemos o que mais pode nascer da fagulha que resta, mas encerramos. A sensação de deixar partir incendeia o combustível do que virá: utopia. Assim vivemos, assim morremos e assim amamos. Acalma a tua estrutura humana, penseis. Senta e acomoda os teus pés na terra, percebe quanto de ti ainda te resta. Somos todos carne, sensação e energia. A mãe terra quem disse, segue uma só vez sem questionar, sossega, segue a mitologia. Sentimos as temperaturas acesas por esses dias. Aceitamos, recebemos. Não somos corajosos o suficiente pra alcançar sinestesia. Sentir na pele jovem, receber o interno antigo e outras trezentos e sessenta e seis sensações dispostas a cada dia. Pensar sobre os ciclos significa palpar as contradições da ironia. Queremos acessar as linhas tênues que insistem em brincar de tecer os que fazem parte dos imperfeitos términos numa perfeita sintonia. Teia da vida, dizem.
De terapias salutares e luzes que brilham, chegamos na fase do recomeçar. Qualidade atribuída à energia, nem de Newton nem de budismo, falo da biologia. Recomeçar fazendo café sem açúcar, adoçando com temperança e canela a fim de equilibrar o próprio equilíbrio. Assim, de silêncio em silêncio a galinha enche o papo e nós os ouvidos. Quantas horas de agonia são necessárias para interpretar um silêncio? Faz parte dos ciclos, o tempo é o mesmo. Ora, no silêncio mora o que está desfalecido. Silenciar é o risco que a voz não deseja, porque o silêncio fala e lhe toma o lugar. Diante disso, invoco a incontestável morte pra saber que estou viva e pra saber de outras linhas que amarram aquela antiga teia do ciclo.  Não se escolhe a ordem. O que morre é o que deixamos partido. Desbotar e secar na agonia, no silêncio, no esquecimento e no desejo de ironia. É o que deixamos perdido em nossa vontade de despertar. Tomemos ciência do ocorrido, não se pode lutar com a morte, nem se pode prender a vida. Tudo, porém, se responde porque somos vitalidade sem harmonia. Tudo é feito de morte, cada solidão escolhida, cada companhia deixada. Mas tudo isso só é matéria disforme quando não temos a lente nos olhos que é da vida. Amor é o que somos quando estamos sozinhos. Somos amor pra desafogar na enchente. Não se pode impulsionar a vida pensando no condicionamento do destino. Não se pode intermediar o desejo com o argumento capenga de um escolhido cansaço. A morte e o amor são inseparáveis porque o amor é do que é feito as pernas da vida. O tempo é o que não se ausenta. Ele é o marido da vida. Estão de braços dados, segurando copos com duplas doses de Bourbun, na tardezinha do domingo.
O tipo de desconforto é proporcional às doses de essência que dedicamos à vida. Não morremos sozinhos porque escapa de fininho a vida. Morremos sozinhos quando apagamos o sopro do outro em nossa lamparina. Quantos de nós acesos, só restará fagulhas? Morremos de amor e de tempo, sempre que terceirizar a culpa, a escolha e a saída. A morte de quem vive em cativeiro sem jaula é mais cruel do que a culpa de ter vendido a arma para o assassino. 
A vida manda um recado, não sejamos seus inquilinos. Não fomos concebidos pra ser findos, somos atemporais e indistintos. Acompanha as três fábulas da existência, este é o teu último suspiro.