sexta-feira, 24 de julho de 2020

O amor mora em Copa

O amor mora em Copa. Encontrei-o numa esquina, numa encruzilhada e num precipício conduzindo à contramão. Numa noite em que estava faceiro, quis-me convidar pra sua imensidão. Quando aparece, chega ligeiro e disforme. Dizem-no estranho, porque foge do padrão. Nele falta pedaços, mas sempre sobra coração. É feito de matéria desenraizada, sabe desfolhar no outono e florescer no verão.
O amor mora em Copa, cabe na folha da árvore e no encontro genuíno com a própria solidão.
O amor que mora em Copa é redentor e simpático. Hoje conduz o próprio caminho, faz nascer o sol ao final do dia e desperta o poente em plena madrugada. Ele é um amor assistemático, não é levado no choro nem busca resolução. O amor que mora em Copa existe na contraluz, na capa de chuva e na janela que se abre ao som de blues. O amor que mora em Copa é filho de Oxum, cuida dos seus espelhos e guarda consigo as chaves das sensações. O amor que mora em Copa não é vaidoso, não se alimenta de flechas lançadas, nem de lamparinas ligadas no disjuntor. O amor de Copa é o reflexo que aparece mesmo em água barrenta. Ele habita rios e mares, casas vazias e madrugadas salutares.
É o amor de Copa um inconstante, incessante, permanente e de união.
O amor de Copa alcança as palmeiras nas sacadas, desloca a impaciência e acomoda a sua magestade.
Nunca quis reencontrar o amor de Copa, agora nunca quero deixar de sê-lo. O amor de Copa é espelho. Translúcido, sabe que não é passageiro. O amor de Copa é de pontes, de túneis e de avenidas. 
É o amor de Copa um amor do mundo, do Sul e do Norte.
O amor de Copa não é aquele que espanta, porque o amor de Copa se compraz na própria essência de ser forte.

Lar da namoradeira

Namoradeira na janela serve a água do chimarrão. Ensaia o salto, faz que ri, se molha e recua. O acaso é um destino. A namoradeira é ressabiada, não mergulha em água rasa porque é faceira em solidão. Ela usa fita amarela no cabelo, carrega uma estrela em cada orelha e luminárias no coração. A namoradeira toma chá de cidreira pra adormecer, adormece e sonha vendo que o mundo acordou mais passível a florescer hoje, do que ontem. Namoradeira é bicho de pelo duro e flor de pessegueiro. Ela sente o vento levar os cabelos, deita na areia e sorri, em dia de Sol e em dia nublado. Se perfuma pra sair, é cheirosa pra chegar, porque olha o caminho.
De novo na janela, casa de alma da namoradeira. Espiou as constelações e viu nelas infinitas linhas marcadas. Tênues e antigas, eram linhas enamoradas. Contou os vagalumes e pensou no retorno, mas sua única volta era pra onde está agora. Lar da namoradeira não é mais a terra de ventania, porque a namoradeira não sabe ser metade. Deitada, distante de todos e do que antes lhe pertencia, confusa entre pele e vestido azul, ela ouve o som do piano que vem de uma janela ao lado. Acomoda os pés entrelaçados, olha o céu e soluça. Mas o choro da namoradeira não tem som nem pesar, ele é feito de lágrima de sereia e rememora o inverno na pampa descampada.
De novo na janela, por regalo da cigana descansada. A namoradeira é risonha e carrancuda, a cigana não sabe que ri. Engole o riso e o soluço. A namoradeira não sabe nada além do que disseste , além de quando lhe disseste que é ela a "hippie do ri".
Descansa a namoradeira, não quer mais ausência de melodia ou onda dissonora. Acomoda os braços, devolve ao Rio tudo o que não é de água e sorri.