quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Filho primogênito de Saturno

Pra alguns o tempo não passa. Pra outros ele passa ligeiro e impiedoso. Mas pra aqueles que sabem vivê-lo, ele passa tão bem, que poderia este tempo dar mais quarenta e nove voltas de doze meses e nem mesmo assim as suas marcas mais pesadas seriam percebidas.
O tempo sempre será aliado fiel daqueles que lhe são gratos, e que sabem viver as suas curvas com alegria.
Eis, meu guri, que nessas curvas percebemos que nem só de permanências vive o homem. É do pulsar pela mudança que desabrocham as melhores possibilidades de nós. Disso bem sei, o sabe o tempo e sabem as noites enluaradas em que foram tecidas todas as escritas que já recebeste.
De silêncios nascem jardins, e flores que têm nomes comuns, como os de nossos filhos. De falas curtas nascem fronteiras identitárias, literárias e culturais. As fronteiras são rapidamente unificadas pelo sentimento das novas sensações, cores infinitas que transbordam o mosaico que compõe o deus do vinho com a Não deusa do amor. Forma-se, então, uma sincronia mágica, podem ver os atentos. Essa sincronia é o que faz a essência guardada no pote de ouro, que não está no final do arco-íris, mas no final da ponte que divide as águas da baía. Cada espaço entre as sextas-feiras do ano ímpar, foram as doses necessárias pra transbordar aqueles capricornianos corações rochosos. Estes que não são meras engrenagens, ainda que Ricardo Reis me contradiga. Os homens e as engrenagens, são uno e são múltiplos. São metades completas do que julgam ser inteiros. São homens metafísicos, de uma beleza sublime que só as divindades da mitologia podem compreender. Homens que não são máquinas, contudo, perdem-se por acreditar que são vazios. O óbvio se alimenta do inverso. Estes materializam as imagens disformes que se vê em manhã de geada, então sucumbem e tornam-se parte da escrita borgeana. São engolidos pelo tempo e pelo vento e não podem ser salvos, nem pela piedade majestosa da sagrado sopro da existência.
Mas do divino homem não me apiedo, não me inquieto, não me aborreço, não me questiono, não me envaideço. Nem eu, nem o tempo. O que penso de si é calmo, é paciente, é generoso, é iluminado e é audacioso. Antes, porém, considero o que pra o astuto e corajoso, Saturno mandara falar. Emposta a tua voz guria - sussurra ao meu ouvido - leva pra que ele receba o recado que é meu.
Eis que lisonjeada e faceira, trago as tuas verdades mais uma vez, como uma porta-voz do universo. Nada que já não saibas, bem sei. De novo, porém, apenas o som que te anuncia a beleza da vida. Quem a tua existência canta agora, é a Não Vênus, que fala sem melodia e sem chiados. Apesar disso, fala molhado e quente, aveludado e transparente. Numa fala que te toca suave, chega em ti como os taninos das taças que entornas querendo contigo a mágica das luzes. São palavras aquecidas no tempo e envoltas no desejo de tê-lo consigo e de trazer-te a boa nova. Aquela sobre o melhor dos mundos, em que se reencontram os dispostos, iguais e submersos, e concebem juntos em horas infinitas a pequena morte.
Morres desfolhado agora e renasce em broto novo, vívido, faceiro e corajoso. Retoma a tua altivez de tronco largo e robusto, árvore sólida que és pra os galhos fortes que de ti hão de surgir. Uma nova espécie, resultado do casamento da raposa com o rouxinol, com a licença do Valença, amigo Alceu.

domingo, 8 de dezembro de 2019

A fonte da escrita sem fim


O que desperta o teu interesse naquela que é incógnita, vem da tua curiosidade no espelho. Sabes que, assim como o pai é exemplo do filho, o mestre também inspira o discípulo. Aqui, nada há de bíblico, exceto a poesia.
Quando ela lhe confidenciou as rosas vermelhas de Capitu, quis ver no teu rosto o orgulho. Esperou de ti exatamente o olhar de satisfação. Nem era pra ela, nem pro destinatário que enviou as flores, mas pra ti. O que explica a admiração do homem, a vontade de ser aceito e o desejo de ser aplaudido ? Talvez as suas divagações femininas que ululam o pensamento em madrugada de tempo frio em pleno dezembro. Talvez, o retorno dos que nunca partiram e que continuam lhe alimentando o coração de alegria só pela metafísica certeza que está igualmente na narrativa do outro.
Não há fórmula para a juventude, assim como não há receita para escolher a quem o afeto se destina. Mas como disse aquela que é sábia e que é sabiá, o nosso querer é sempre nebuloso. Andamos a passos largos esperando encontrar o que se havia querido há segundos já idos, daí que o presente nunca há de estar em sintonia. A insaciável fome é pelo desconhecido, disso também lha ensinaras. E se o que lha toca os dedos é o cintilar das letras bem dispostas, saibas que a tua harmonia também está ligada a isso. Se já lha tivesse deixado, como é da tua natureza fazê-lo ainda que a si, ela teria se perdido no descaminho das sensações que nunca viraram escrita. Teria procurado uma casa estranha de cinco cômodos, deitado na cama da sala cujo colchão é feito de livros e, acomodada no conforto do lençol de algodão, teria esquecido a que veio para tão longe. Tão longe que é matéria de sonho. Sonhos que lhe ocorrem com uma frequência quase  insensível, e que ela  ainda sabe distinguir tais dimensões. Por sorte ou por reciprocidade, seguiste aqueles que permanecem na plateia. Segues aplaudindo quando as cortinas se fecham, segues perguntando donde vem tanto dom pela palavra, segues querendo estar presente mesmo entre os tantos desejos nuviados que dominam o teu coração humano.
Saibas, nada há de irreal em estar presente. O contrário do que está óbvio é só demagogia. O que ela quer de si, nada tem a ver com coisas outras, só que cuides. Cuides do cuidado pra não perderes o brilho da loucura que escolheras para a vida, matéria prima divina esta, que só pertence aqueles que amam o improvável.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Lágrimas de Vênus

   As lagrimas de Vênus chegaram quando não se esperava mais as astutas pretensões de escritura pelos fantásticos animais terrestres. Evidentemente, essas lágrimas não são comuns. Se são lágrimas de Vênus, vem de uma divindade e daí o seu peso maior. Essas lágrimas de Vênus são para lavar dezembro, para levar novembro e para encerrar com o fio da navalha o que precisa ser encerrado. 
   Vênus não é divindade que esteja à mercê das vontades do tempo. Embora ele a domine em algumas circunstâncias da eternidade, esperar está longe de dominar as suas atividades na terra. Vênus sempre sabe o que quer e não se cala quando a voz está em sua garganta. Afiada, Vênus é ardilosa, é perspicaz, mas é piedosa. Ela tem o que quer quando está disposta a ter, desde que isso não lhe custe mais que o peso do ouro. Com isso, porém, não se deita no macio veludo da vaidade. Ela sabe que a sua força não vem da espuma do mar como seu nascimento, mas vem de suas lágrimas.
   Por que Vênus chorosa pode ser resultado de frustração? Não deveríamos supor tão facilmente que o tom suave do seu lilás, atribui às lágrimas o dom da transmutação passageira. Da água viemos e à água retornaremos, não ao pó, à água. Pura e livre das chagas da humanidade, a água libera tudo o que ficara aprisionado, por isso Vênus chorou. Mas nem mesmo a deusa do amor foi capaz da autocura. Vênus chorou para colorir o último mês do ano com a cor da transmutação. Sua mais bonita habilidade está em banhar-se no choro para não ficar atolada nas lamas de suas realizações adiadas. É assim que, embora parece triste, Vênus só estava em seu processo natural de fazer vir a si as coisas que deseja. A tristeza, para ela, cabia num pequeno globo de cristal, onde guardara a última lágrima da noite. Naquele dia ela olhou o sol como o ainda não tinha visto, ele estava solitário e parecia sereno no seu movimento de entardecer. Vênus não soube ser solta, prendeu os pés na grama e fez os últimos raios que lhe chegavam ficarem agarrados aos seus cabelos para que ela sentisse o calor de quem não se importa em dormir sozinho todos os dias. Não era pelo sol que Vênus estava enamorada, mas pela sua capacidade de iluminar a si e aos outros.
   Mas os pobres mortais não a compreendiam. Disseram-lhe que a queriam para si, mas que a competição era injusta porque Vênus amava à Baco, uma outra divindade, como a sua própria natureza. Vênus sorriu ao ver tamanha ousadia, e novamente chorou. As lágrimas de Vênus na ocasião foram de pesar. Quão egoísta poderiam ser os homens que no auge de sua audácia a queriam para si como um enfeite bonito para suas cabeças vazias, Vênus se questionou. Ela chorou, recolheu então as lágrimas em uma banheira sedutora, em que afogou aqueles insanos, como se fossem pequenos girinos presos pela própria cauda em formação.
   Vênus não é a tirana, mas insere suas marcas em todos os lugares que habita. A sua presença é capaz de encerrar padrões oriundos do Eden. Vênus é prima de Lilith, para quem não a conhece. Mas neste primeiro dia do mês de Dezembro do ano de 2019, Vênus é o tom suave de lilás presente no esmalte das unhas desta que lhos escreve. O nome, na certa, fora dado por algum desavisado (mortal, por natureza perversa) e pretensioso que ousou chamar a um adorno feminino tão singelo, de Lágrimas de Vênus. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Amizade de amiga

No resgate do que sobrou do jantar de ontem, uns grãos de tempo requentado estão adornando o teu prato de porcelana francesa.
Bate à porta a vizinha que anseia por incógnitas, mas agora ofereces a ela, pão. Não soltes da mão de quem te segura com tamanha firmeza, és ainda farelo demais para pensar em homogeneizar agora.
Na mesma medida, não aflige o teu coração ainda, espera a canção virar grito de harpia, depois chorares-á de rir. Quando cheguei já estavas imersa, não podia mais pensar em resgatar-te sem danos. O problema de quem se acostuma a terrenos inférteis é que deixa de crer que pode ser árvore de frutos. Mas não queixa as tuas mazelas pras paredes, elas absorvem e te devolvem sem progressão. Ao invés disso, saibas que até as areias da praia desdenham o que foste nos últimos dez anos. O universo, porém, confessou-me em segredo que os males do excesso e da falta já não cabem em ti, e que isso trouxe-lhe uma nova essência para a poção do amor que leva nas unhas nesta última semana de novembro.
Minha bela e harmoniosa sintonia, vou contigo pegar mais flores de outono. Vamos juntas para que não penses mais que a oportunidade é apenas uma ilusão da tua vontade. Somos filhas da terra e vamos caminhar sobre as folhas para que te fortaleças e ressuscite em esplendor de libélula no verão.
Sei que viraste cinzas mais de uma vez, daí que o teu sono andava faltoso e a tua coragem carrancuda contigo. Mas vais planar como as aves do paraíso a partir de agora. Sobraste onde até então estavas encaixada porque transbordas do que foste no tempo em que a luz da lua não te alcançava os dedos. 
Vai, vai ser gauche na vida que o poeta te sustenta nas asas prateadas que tem.

sábado, 9 de novembro de 2019

Antônio Santiago

Não há tempo para pensar, Santiago também será Antônio. Quando pensei que não o veria mais, trouxe o García Márquez pra falar da solidão na América Latina. Construí um novo caminho e o ressussitei como Antônio.
No entanto, repara, não parece um bom nome se não se falar em voz alta. Antônio Santiago é melhor do que Santiago Antônio, disso estou certa apenas pela estética, não por hierarquia. Antônio que escreveu o canto alegretense, o Conselheiro da literatura ou Antônio que vem de Antônia. Santiago é Santiago. É shakespeareano, é sobrenome de Bentinho, é referência de santo. Capital do Chile, terra de Neruda, terra de outros.
Santiago virá das árvores desenraizadas, Antônio também. "Antônio Pigafetta, um navegante florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao redor do mundo, ao passar pela nossa América meridional escreveu uma crônica rigorosa, que, no entanto, parece uma aventura da imaginação." Está no García Márquez, uma escritura santa. A bíblia de cada um é diferente, disso Antônio Santiago saberá.
Não tenho dúvida de que ele saberá. Mas se vai ler García, Borges, Oliveira, disso só ele saberá. Antônio Santiago pode até não ser afeito ao mundo do futebol, mas há de perdoar essa que agora fala de si, que há de lhe vestir no manto Colorado tão logo venha conhecer o mundo. Aquele que será responsável por metade da sua genética, pode até me contrariar, mas (pretenciosa, antes otimista) bem embasados e na companhia de taças cheias de Merlot e Malbec, vamos chegar a um (ao meu) acordo pacífico neste caso.
Antônio Santiago será mais uma raiz da América Latina, mais um desenraizado. Mais um atravessado, semeado na terra fértil dos que acreditam que "não tá morto quem peleia".
Se quando vier, bater os olhos nesta escrita, saberá que não "tem" nada, mas que pode tudo. Pode, inclusive, tecer a sua vida numa crônica rígida, que possa no entanto, parecer uma aventura da imaginação, parafraseando o Gabo e fixando a minha crença de que "todas as histórias são reais, apenas os seres é que são imaginários."
Além disso, Antônio Santiago saberá da inspiração dessa escrita, do texto escrevível ou "modelo" como chama Silviano, que não por acaso, também é Santiago.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

As caras da isenção

"Tudo o que Borges dizia tinha uma qualidade mágica (...) E eram mágicas porque aludiam ao homem escondido por trás do Giorgie que conhecíamos, um homem que, em sua timidez, lutava para emergir, para ser reconhecido."
A isenção da vida não é parte do faz de conta. Estela amava Giorgie que não era o Jorge, amava o que escolhia estar isento, ainda que tentasse enveredar para o contrário. O amor, Estela, é desses casulos de solidão e de negação, mais vezes do que pensamos. 
Isentar-se da vida é motivação dos descaminhos, cara Estela. Isentar-se, pois, não é fraqueza de quem está sozinho. Aquele que se isenta, sente. Sente até mais do que a sua plateia. O isento escolhe não sentir quando acha que já não cabe mais na própria casca.
Contudo, não é um covarde o isento, é um corajoso, por certo. O que ocorre, porém, é que o isento faltou no dia em que a aula foi sobre os milagres das possibilidades. Ainda que ele saiba das sensações e escreva sobre elas. A ausência de coragem no isento, também é ilusão da condição de si. E quem sabe o motivo da sua ausência, às vezes, é só falta de sorte. O isento pode estar disperso na transparência de suas fugas, ou imerso nas tantas caras que têm.
Finge que ri, porque não sabe se é capaz de comportar uma dimensão tão grande, qual é a da felicidade. É de sua natureza se enxerga pequeno.
O contraditório lhe habita. Ele, sabe que é gigante, mas desconfia que isso seja, também, só mais um artifício da isenção.
O isento continua inquieto mesmo quando dorme. Para ele, o sono lhe dissolve os pesos que o acompanham e isso já lhe basta para aparentar outra ilusão. Quando acordar, não sabe quantos mais de si irão levantar e permanecer isentos.

sábado, 12 de outubro de 2019

O silêncio fala

Mais de uma sintonia de verde e na cidade do sol os morros cintilam.
O amargo do chimarrão está incompleto, pela primeira vez em muito tempo, seu gosto é de ausência. Uma das caras do verde é ser de esperança, outra, é que pertence às cores frias.
Gosto de entender as vontades do verde. Às vezes, sinto a sua vibração de picuinha, porque ele seria o favorito, não fosse a existência do vermelho. Enveredei pelo vermelho porque ele carrega o peso das sensações mais opostas. As melhores e as piores, é seu dom, daí em ser o eleito. Por sorte, verde e vermelho estão juntos na bandeira da terrinha amada. Comemoro discreta a parceria temporária e sigo observando.
Dançam as luzes da ponte que atravessa a baía, formando um tapete de geniosas estrelas que se misturam, ora amenas, ora agitadas. Compondo tamanha beleza, o céu de outubro, que está limpo, recebe mais uma lua de primavera.
Com considerável distância, brilham imparciais os morros. Esses são brilhos oniscientes, podem tocar o Cristo e a sua temporária pequenez de dar dó. Se a água do mate estivesse mais quente, eu diria que o paraíso estava ali.
Não é o ópio da erva mate que faz meu pensamento ocupado, embora a fluidez do verde oliva seja permanente no piscar dos meus olhos.
Somos frutos da mesma árvore, a minha inquietude com isso ainda está presente.
Convocam-me impacientes os Quero-Queros. Querem tirar-me do silêncio, dizem. Acham que estou submersa na energia da noite, e que isso traz o risco da desatenção.
Peço que se aquietem, que ouçam comigo a sintonia do universo. Conto-lhes que estou atenta a cada folha soprada no vento, que ocupa-me o pensamento a reflexão sobre as tantas formas de amor, sobre particularmente essa, a que une solidões.
Sigo percebendo os casais à volta, dois deles parecem feitos de solidão, os outros são mais apressados, coisa da fluida superficie do que entendem por amor. Superficie que reflete nas águas de Iemanjá e eles parecem sentir que estão embalados nela, que por rara coincidência, não está calma. Essas são águas que vivem, carregam vidas deixadas e vidas que seguem. São águas que tem cheiro de solidão, não qualquer solidão, mas sempre aquela mais conveniente.
 Percebê-los assim é covardia. Reconheço a minha tendência a invejá-los por não estarem sós.
Sigo inquieta, principalmente pela consciência de como estou.
 O meu companheiro de todas as horas estava ali e ele já não bastava. É possível que eu tenha, pois, finalmente percebido que o chimarrão é uma solidão que não escolhe estar só. Resolvi também invejá-lo.
Apesar dos descaminhos do momento, a serenidade ainda é maior em mim. Sei que a vontade deve ser vencida pelo dever, e assim o faço. Três vezes o faço. Três vezes acelerei a reposição da água, três vezes pensei em caminhar até a solidão cansada, e três vezes fui vencida pelo dever.
Acabou a água, recolhi o chimarrão e as luzes retomaram o brilho natural do cotidiano.
Percebi que o silêncio fala. O silêncio grita e há quem o escute, embora as comunicações por telepatia nem sempre são eficazes como prometem as ciganas.
Guardei o riso no canto da boca e fui embora tranquila. O verde, afinal, acolheu-me na primeira conotação que lhe dou e ajudou-me. Fez seu papel e logo eu estava em casa, deitada e coberta com um manto de serenidade e solidão.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O sentimento do mundo (outubro de 2019)

Tens o mundo nas mãos e os teus desejos ao teu alcance, não é piada, chegaste.
O segredo é gostares primeiro do que tens, não há outro caminho.
 O universo escuta e devolve bordado em ouro a tua escrita de sintonia. Para isso, porém, não basta que te agrade, é preciso que o teu gosto seja genuíno e feito de alegria.
Se pensares, normalmente gostamos mais da ideia que fazemos de alguém do que propriamente desse alguém, disse Pessoa. Basta que penses nas fantasias que criamos com alguém, das matérias de sonho que temos  com tal pessoa. Daí comparar com este ser concreto no tempo real, e a realização é sempre inferior à utopia.
Aquele que tem discernimento para compreender que somos feitos de desejos, de solidões - dissera o artista - tem o antídoto para a tristeza e para a frustração.
É importante que queiramos aquilo que desejamos, que saibamos, sobretudo, querer. Mas também é importante que queiramos aquilo que temos.
O que esta próximo também pode ser o espelho de realização, não é preciso que a natureza nossa de incerteza, conduza a uma emoldurada imagem de ideal.
Queremos e queremos diferente, de inúmeras formas, mas o querer também deve ser contemplado com satisfação, e disso bem sabes.

sábado, 28 de setembro de 2019

O desejo e a utopia do rapaz


Quando a flecha de Zenão foi lançada o desejo era indissoluto.
Nao se quer aquilo que se tem, nem aquilo que se sabe que terá. O desejo está direcionado pela utopia e pela abstração.
Soubesse disso, o rapaz da utopia não teria pensado em Tomas Morus para o primeiro presente a sua lady. Mas como a flecha, a palavra está lá. A dedicatória é sublime, carrega o peso de cinquenta ensaios de escrita, de horas dedicadas a fazer arroz doce e falar de literatura.
Nao era essa memória que a essência da escrita precisava, mas foi a conveniência do tempo que a trouxe.
O desejo é todo tecido por certezas flutuantes, daí a ideia do mesmo autor de que o segundo presente seria não a flor, mas um pé de jasmim.
A permanência da planta lhe faria presente ainda que não estivesse ali, ele venceria a barreira da efemeridade do tempo e ainda se faria presente para ser lembrado. A ideia era boa, não fosse o desejo que lhe sabotou com um tapa de luva e uma rosa branca certeira.
A fase do encanto passou, subverteu o desejo em frustração. Disso nasceu primeiro ódio, repulsa e depois desejo de novo. Ele não tinha saída senão tentar, sabia disso, agiu conforme a intensidade de seu querer desajeitado.
Nova frustração e acúmulo de desejo. Seu alvo já estava desenraizada, o desejo não a consumia mais, ela estava apaixonada por si e  a permanência vazia, dissoluta.
Ainda que cinquenta mil passos sejam dados, o desejo dele deve estar por lá guardado, recalcado e sozinho, ansiando o momento de sair pelo ato falho e virar sintonia.

Quando conheci Baco


A beleza do homem vermelho está refletida na taça de vinho.
A culpa é de Baco que fez dele sua imagem e
semelhança.

Nunca pensei em conhecer Baco pessoalmente
Saber de si já me bastava, não fosse o descaminho místico das constantes coincidências de semelhança entre nós.

Baco também é da terra e é desenraizado.
Baco olha-me com a sutileza de um arqueiro que tem seu alvo marcado.
Baco não compreende as superfícies rasas do amor,
Ele sente e impulsiona de si o que quer.

O universo segue em sintonia quando Baco vem à terra.
Encontrou-se com a Gaia desconstruida no Tempo e disse que lhe é solidário
Baco tem em si dimensões que não são contadas
Ele estrutura as palavras nas proporções de suas intensidades porque não quer dividir com o vento o que preserva para os deslocados.

Baco não sente que ri.
Ele guarda a sintonia de suas alegrias nas orelhas dos livros que escreve,
Cada ser uno tem a dimensão maior do que ela realmente é,
Baco não é diferente.

A palavra não é a flecha, ela é a matéria de veneno e de poder sobre quem é lançada.
Baco não sabe o que quer,
Mas Baco sabe o que não quer com afiada certeza.

Não sei quantas vezes mais o encontrarei materializado, ou se de fato alguma vez o encontrei
Permanece o jogo da incerteza entre nós.

No mais, vergonha pouca é bobagem
Baco fala-me ao ouvido toda noite no sono.

A energia de Baco é quente,
Mas o vinho não cai bem nos climas de sol escaldante,
Eis o dilema.

Da próxima vez, vou consultar a sereia de Esther, a judia.
A resposta certa é sempre o avesso do que parece, mas disso só  sabem os que amam o improvável.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Uma essência em registro

A essência do cigarro é o fumante.
Meio cigarro entre os dedos e o quanto de exuberante há nisso sem a palavra

Elos inocentes de um olhar maduro e enferrujado os percebe em uníssono,
Perpassam o moço, o cigarro, o pálido, o sólido
O tranquilo e o real.

Naquele semblante uma espera
Desconfio ser apenas a angústia da última tragada
A mim, parece-me uma espera genuína,
Antes, porém, enrrigecida de solidão.

O cigarro acabou,
 a aura de uma legítima persona borginiana esvaiu-se com a última fumaça.
Volta o moço ao seu casulo.
Franzino, pálido e delicadamente cacheado
Ele me olha.

Por segundos afinco na segunda-feira de um sol poluído
Duas vezes ele me olha.

Fez que vai levantar e acende outro cigarro
Segue sentado e agora parece nervoso.
Ele sabe que foi notado por alguém além de si.

Bate as cinzas com toda a sutileza de outono que lhe compõe o ser,
Quase impercetível
Oculta-se na fumaça e discretamente ri
São novamente um só, o ser a sua poesia
Invocando de longe a literatura.

A serenidade no ato de tragar é o belo.
Feito de desejos, materializado em realização.
A poética do exagero não coube tão bem antes

Meu olhar de pequenez queria dizer que fiz deles escrita, mas não cabia mais na página.
Olha-me pela quarta vez, apaga o cigarro e sai.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

A roda: parte 1

Desportar para aportar.
Penso nas voltas que a roda precisa dar para deixarmos de teimar no desequilíbrio que nos favorece. O equilíbrio aparente que torna confortável e cômodo o enjoo do cima que vira baixo no pôr do sol.
Quando se vê, disse Quintana, em conflito com Saturno por ter sido tão cruel. Ora, se a culpa não é do tempo, a interferência dele não deveria ser insinuosa em tamanha proporção.
Nesse embalo, encontrasse eu o Mário, lhe diria que também sou dessas, que todos somos, mas que ele também o é.
Encontrasse, tivesse, buscasse... Quantos verbos mais no pretérito imperfeito é preciso que tenhamos na lábia para justificar o temor ao tempo ? Infelizmente, não é no discurso que vem a resposta, mas no vai e vem do relógio. Lá e De Volta outra Vez, as madrugadas são pra isso nos dias em que nem o silêncio é tão mudo quanto nós.
Escolher ficar é puramente uma questão de motivo, não de planos, não de outorgadas ideias de um futuro já ido. Ficas aonde os teus pés te levam e o teu coração te traz de volta. Num movimento cíclico ou indirecionado, sempre no rumo do teu próprio coração. Qual a liberdade que tens, qual a roda viva que queres

A roda : parte 2

Os tantos interesses temporários que temos são tão ou mais subjetivos que o silêncio da conquista.
Tardar a alegria é bater na própria cara e esperar de si mesmo o consolo. Mas nem só de tolices vibra o coração do homem, que também se satisfaz na parcialidade das sensações. Afinal, intimída-se com tudo o que é intenso, porque isso lhe transbordaria a rasa superfície de coragem que tem.
Mas ai de ti que subverte o óbvio, advertem-lhe as convenções e novamente cai no embalo dos contos de poder que tanto repeles nos teus garganteios.
O discurso daquele que domina sempre encanta o dominado e assim constroi-se a teia, delicada e ironicamente tecida pelas moiras.
Mais uma vez segue a roda, não para o tempo nem as vontades, nem as covardias, nem as vaidades. Paras tu, estagnado no teu embalo de veneno e nostalgia serena.

Pessoando

Pensar em memória é um teletransporte imediato às lembranças, histórias e estórias já idas, que comumente inspiram a derradeira vontade de reviver o momento. Nesse embalo trago ao presente as memórias de como conheci Pessoa e as 136 pessoas de si. Dos que lhe habitavam, apaixonei-me pelo que levava flores à guria da loja de cigarros por volta de onze da manhã e depois das cinco, passava sem fitar-lhe sequer de relance os olhos. Enquanto ela, intimamente desajeitada, debruçáva-se à janela pensando confusa no encontro caloroso de outrora, teimando no amor inquieto do amante que era duplo, que era uno e que era tantos.
Entretanto, nada de confuso há no pertencer de si que habita mais de um. Ampliar o discurso para a fala de outros que ainda são um só, na intemperança de enxergar o vazio sempre no reflexo da ausência.
Ser tantos e não ser nenhum, em qual daqueles que lhe pertenciam, mais pertencia o hospedeiro físico, questiono. Por que não somos capazes de pensar na impresença de algo ou apenas na presença do vazio quando tomamos conhecimento do espelho da alma?
Não se fala aqui de coração, fala-se da alegria de estar e de ser, de entender os entrelugares e de pensar na beleza autêntica que mora na imensidão de uma memória mansa que não é mais conturbada pela nostalgia.
Fala-se de estar onde estás, de seres e pertenceres ao lugar e de guardar contigo as memórias, para que elas sejam o teu refúgio de aconchego e não uma sepultura criada por desejos de partidas frustradas.

A não Vênus

Quantas de nós libertas, ainda despertam acorrentadas pela censura do ar que já foi respirado por Elas.
Quantas de nós, Emmas, Iracemas, Isauras,
Gaia.

Bruxas que expelem veneno, quase cobras, serpentes
Evas, ou Héras.
A chave é o feminino, o cadeado também.
A culpa é da Capitu,
Culpa, é de que natureza ?

Traiçoeiras hienas, sempre espreitando os pobres leãozinhos.
Laila sobreviveu à Cidade do Sol nos anos de chumbo,
Olga Benário não.
As histórias só se cruzam quando se pode enxergar a teia, porque o comum entre elas e que eram, pois, Elas.

Vênus é a tirana, tão mais que Pomba Gira Cigana, será ?
Não brinca com isso guria, és de sintonia com a terra, cabe em ti todas Elas,
Quem és, senão Ela ?
A Tangerina, do Brilho Eterno
Não
A canela da Gabriela, talvez.
O oposto de Vênus , desconstruida e boba.

Menina
Mirtila
Mimosa
Maior
Meio solta,
Meio presa,
Muitas vezes enraizada
Mas sempre inquieta, curiosa
Marcada.
Maria é Ela
Ela é tu, sou eu,
são Elas e nós.
Mulher.

Para o Homem GreNal

A importância do homem greNal chegou aos 11 anos. Um homem grenal que também é o homem sul-americano, somado vale por dois e em muitas partidas valeu pelos onze.
Mas isso de pertencer à história do clube é para poucos, é  preciso alguns elementos essenciais que tornam o jogador comum, num semideus da bola. Um jogador comum passa por vários  clubes, faz seu papel em campo e vai se adaptando ao que lhe é exigido ao longo (ou curto) de sua carreira. Para ser a identificação do clube, porém, é questão que compete àquele que se dispõe a assim sê-lo, sujeitos que vestem a camisa pelas veias e não pelos braços. Foi assim, que para entrar pela porta estreita, D'Alessandro usou o gatilho do "LA boba" ainda que o adversário pesasse mais de 80kg e superasse em muito os seus 1,74cm de altura. Soube levantar a cabeça para olhar o jogo contra o Chivas na final da libertadores de 2010 e ser o garçom que Giuliano e Alecsandro precisavam para trazer o caneco ao Beira Rio pela segunda vez.
O hermano atrevido honrou a camisa colorada como poucos, chegou a Porto Alegre com cara de guri e futebol de gigante, subiu no salto pra entrar de sola quando foi preciso ser guerreiro nos 90 minutos e logo estava agarrado ao chimarrão da gauchada, vermelho no sangue, no coração e na camisa 10 que conquistou como poucos na história do colorado dos pampas.
D'Ale é Inter e Inter é o nosso sangue que vibra em vermelho e branco toda vez que ele põe o pé em campo.
Do Celeiro de Ases para a história, gratidão ao argentino mais gaúcho que já pisou no Gigante da Beira Rio.

Essência do amor

É de arte que o amor é feito,
Amar o amor é a arte.
A arte de amar tem que ser baseada em intransitividade,
Porque amar a arte que é o amor,
é obra legítima da clandestinidade.
Nem só o amor negado pode ser transformado,
Tão real quanto a arte, o amor enquanto coisa, nada tem e de nada faz parte.
O amor é, e ser só tem sentido de ligação.
A arte é de amar o amor sem ter nenhuma mínima realidade,
Muito menos de razão.
Só de amor,
Porque o amor ama a parte.

De girassóis e de rosas

Das faces que habito, numa circunstância breve, já quis ser a tua.
Na permanência exata da rosa que és
Rosa, não A girassol que busco ser.
A rosa em nuances de preto, aquela que também acompanha o teu sol, rosa dos ventos sul em que fazes morada nos dias que pra ti parecem sempre ensolarados.
És quase o próprio sol na tua alegria, daí que o girassol faria muito bem as vezes da rosa que tens e do sol que és.
Não é preciso que digas-me nalguma circunstância futura, que a luz do mundo é mais forte, eu pude encontrá-la depois do desencontro que quiseste em nós.
A rosa nem sempre está disposta, canciona com o cravo - diz-me - mas também com a margarida e com os girassóis.
Eu escolho o girassol porque é o clichê que falta na autenticidade, aquela que insisto em venerar, bem sabes. A Girassol, ela, mergulhou inconsolável no infinito daqueles dias do agosto (a teu gosto), questionamos a persona que és e a que aparentas ser, entendemos que o infinito era inevitável mas que o efêmero também, qual a beleza que consiste no Tempo e em nossas flores para enfim receber o setembro que chega amarelo
Que chega sendo o favorito das flores e o escolhido teu.
Procuro na luz, ser o eclipse que prefere o girassol, quando Eu gosto mesmo é de rosas, porque "do que eu gosto é de rosas, de rosas, de rosas

Mulher do XV

Na direção da Praça XV a parada número 15
 para ela que é nascida às 3h15.
Viaja na poltrona 15.
Escolhe quinzenalmente uma nova de si e troca 15 vezes de pele, a mulher do 15.
Arriscou-se a ler Rachel,
Perdeu -se na décima quinta linha
Seu 15 era outros.
Desdenha todo par,
Anda com o ímpar, com o 15 ou com os quinze.
Aos 15 anos tomou a identidade de 30 e não parou.
No 15 de um mês de mudança de estação, depara -se com o 15 e o registra
Mais uma vez desolada.

Quando o Gigante Chorou

Quando o Gigante chorou

Seria uma incontestável desonestidade considerar o Athletico-PR um "Davi", no sentido do tamanho apenas. O Gigante da Beira-Rio foi derrubado por um furacão que entrou em campo estruturado, equilibrado e determinado pelo seu primeiro título de Copa do Brasil.
Vi o Inter ganhar os maiores títulos da nossa história vermelho e branca, Campeonato Mundial em 2006 contra o outro gigante, Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, e as Libertadores de 2006 e de 2010. Tempos em que a identidade do Gigante fazia dele não só grande, mas monstruoso, guerreiro, audacioso e capaz de fazer chorar de emoção a guria de dez anos que estava no princípio do despertar do seu grande amor.
Amar o Gigante é lidar com a perda do eterno Fernandão que foi nosso ícone, carregar na história o D'Alessandro que é o próprio símbolo de que "tamanho não é documento" e pertencer a nação campeã de todos os títulos possíveis a um clube de futebol brasileiro.
Mas amar o Gigante é lembrar também do fiasco contra o Mazembe em 2010, do GreNal de 5x0 em 2015 e de hoje, na derrota pro Atlético, de mais um "quase" em mais uma conquista adiada.
Rafael Sóbis, não só veste a camisa, seu papel em campo (e fora dele) faz dele um componente essencial da identidade Colorada. Talvez este seja um peso ainda maior quando o guri de Erechim lembrar que não pôde ser o nome do gol que consagraria o Colorado no celeiro dos Ases, pelo contrário, foi o guri posto pra dançar na jogada talentosa de Marcelo Cirino pelo lado esquerdo, deixando Rony livre para matar o jogo e derrubar definitivamente o Gigante da Beira-Rio.
Diferente do Golias, não ficamos cegos, mas choramos ao cair e colocar mais um time grande na história dos gigantes. 

Gaia desconstruindo o efêmero

Quando o tempo parou entrei em desesperada sintonia com os ponteiros. Questionei a que vinham, por que vinham e quantos de nós tinham por seus.
Senhora de areia - disse o menor - não vais ter de mim senão aquilo que mereceres, a resposta que queres é de ironia. Se não sabes onde estás e não compreende quem és aí, não cabe a mim responder-lhe em harmonia.
O segundo, mais perceptivo que genioso, olhou-me atravessado, apontou para o quinze e disse: Não pergunta aquilo que sabes, insultas assim a nossa soberania. Vens da areia deste que chamas Tempo, deste que invocas corriqueiramente, esquecendo sua real dimensão. Tens o próprio simbolizado em ti, és uma de suas amantes e não encontrarás resposta noutro lugar que não aí.
Em verdade lhe digo, acende um cigarro, olha a fumaça, és herdeira de Pessoa. Sente a tua raiz que sai das profundezas indomáveis de Gaia.
Após a minha partida, vai e não peques mais, atenta o teu olhar para o que precisas e a resposta virá numa só palavra.
Retirou-se majestoso o ponteiro maior. Não sem antes lembrar-me que não ficaria no quinze pra que eu não acomoda-se os olhos em si, distraindo-me do necessário. Ressaltou também  a importância de não ocultar na memória a sua existência, pra não despender ao descaminho das horas ao longo dos dias.
Ainda estarrecida pela conversa, sentei-me. Abri O Livro do Desassossego e invoquei Bernardo Soares. Depois de alguns minutos olhando a fumaça, eis que tudo estava lúcido.
O efêmero estava ali novamente.