A mulher do espelho quis deixar de ser retrato, partiu a contragosto e foi levada consigo para si. Finge que ri, mostra a covinha, atravessa as dimensões do reflexo e congela. Retorno.
A mulher do espelho materializa o que não quer, sempre que passeia na ponta dos pés pra acomodar o seu incômodo.
As mulheres do espelho são todas as que habitam os livros, as que protagonizam os próprios destinos e as que solidificam o que querem com a própria graça do seu querer. Quereres que não são bipartidos.
A mulher do espelho não emparelha a sombra, se esconde nela e embala o próprio reflexo em papel de presente colorido para oferecer aos astros quando atravessar o portal.
Todas as mulheres de espelho são soltas. Não prendem nem se fazem prender, ainda que sejam presas pelos próprios fios de cabelo às mãos que lhas seguram cansadas. Santificam espectros que lhas carregam de si, só para confortá-los em troca de seus próprios abrigos. As mulheres de espelho não vêem o que querem, mas vêem a si em tudo o que desenham com seus amores próprios. Enraizadas, as mulheres de espelho são muitas e de todos os lugares, mas sempre pertencerão ao que menos lhes cabe, porque amam. São as mulheres de espelho, legítimas andorinhas. Sozinhas, fingem que rir da própria sorte é a mágica para fazer verão. Acompanhadas, esperam silenciosas pela própria essência de ser forte.
Mulheres de azar, as mulheres de espelho não desafinam, definham flutuando sempre sem pesar.
São mulheres humanas as mulheres de espelho, e não há uma só sintonia velada que lhes passe aos olhos.
As mulheres de espelho, são atravessadas, cadentes e ensolaradas. Sabem chover as mulheres de espelho, porque não faz parte de si o medo do medo de estar com medo da própria morada. Medo divino, antigo e disfarçado, que faz das mulheres de espelho fortalezas de pólen e da fumaça macia de uma última tragada.