quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Amizade de amiga

No resgate do que sobrou do jantar de ontem, uns grãos de tempo requentado estão adornando o teu prato de porcelana francesa.
Bate à porta a vizinha que anseia por incógnitas, mas agora ofereces a ela, pão. Não soltes da mão de quem te segura com tamanha firmeza, és ainda farelo demais para pensar em homogeneizar agora.
Na mesma medida, não aflige o teu coração ainda, espera a canção virar grito de harpia, depois chorares-á de rir. Quando cheguei já estavas imersa, não podia mais pensar em resgatar-te sem danos. O problema de quem se acostuma a terrenos inférteis é que deixa de crer que pode ser árvore de frutos. Mas não queixa as tuas mazelas pras paredes, elas absorvem e te devolvem sem progressão. Ao invés disso, saibas que até as areias da praia desdenham o que foste nos últimos dez anos. O universo, porém, confessou-me em segredo que os males do excesso e da falta já não cabem em ti, e que isso trouxe-lhe uma nova essência para a poção do amor que leva nas unhas nesta última semana de novembro.
Minha bela e harmoniosa sintonia, vou contigo pegar mais flores de outono. Vamos juntas para que não penses mais que a oportunidade é apenas uma ilusão da tua vontade. Somos filhas da terra e vamos caminhar sobre as folhas para que te fortaleças e ressuscite em esplendor de libélula no verão.
Sei que viraste cinzas mais de uma vez, daí que o teu sono andava faltoso e a tua coragem carrancuda contigo. Mas vais planar como as aves do paraíso a partir de agora. Sobraste onde até então estavas encaixada porque transbordas do que foste no tempo em que a luz da lua não te alcançava os dedos. 
Vai, vai ser gauche na vida que o poeta te sustenta nas asas prateadas que tem.

sábado, 9 de novembro de 2019

Antônio Santiago

Não há tempo para pensar, Santiago também será Antônio. Quando pensei que não o veria mais, trouxe o García Márquez pra falar da solidão na América Latina. Construí um novo caminho e o ressussitei como Antônio.
No entanto, repara, não parece um bom nome se não se falar em voz alta. Antônio Santiago é melhor do que Santiago Antônio, disso estou certa apenas pela estética, não por hierarquia. Antônio que escreveu o canto alegretense, o Conselheiro da literatura ou Antônio que vem de Antônia. Santiago é Santiago. É shakespeareano, é sobrenome de Bentinho, é referência de santo. Capital do Chile, terra de Neruda, terra de outros.
Santiago virá das árvores desenraizadas, Antônio também. "Antônio Pigafetta, um navegante florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao redor do mundo, ao passar pela nossa América meridional escreveu uma crônica rigorosa, que, no entanto, parece uma aventura da imaginação." Está no García Márquez, uma escritura santa. A bíblia de cada um é diferente, disso Antônio Santiago saberá.
Não tenho dúvida de que ele saberá. Mas se vai ler García, Borges, Oliveira, disso só ele saberá. Antônio Santiago pode até não ser afeito ao mundo do futebol, mas há de perdoar essa que agora fala de si, que há de lhe vestir no manto Colorado tão logo venha conhecer o mundo. Aquele que será responsável por metade da sua genética, pode até me contrariar, mas (pretenciosa, antes otimista) bem embasados e na companhia de taças cheias de Merlot e Malbec, vamos chegar a um (ao meu) acordo pacífico neste caso.
Antônio Santiago será mais uma raiz da América Latina, mais um desenraizado. Mais um atravessado, semeado na terra fértil dos que acreditam que "não tá morto quem peleia".
Se quando vier, bater os olhos nesta escrita, saberá que não "tem" nada, mas que pode tudo. Pode, inclusive, tecer a sua vida numa crônica rígida, que possa no entanto, parecer uma aventura da imaginação, parafraseando o Gabo e fixando a minha crença de que "todas as histórias são reais, apenas os seres é que são imaginários."
Além disso, Antônio Santiago saberá da inspiração dessa escrita, do texto escrevível ou "modelo" como chama Silviano, que não por acaso, também é Santiago.