sábado, 30 de maio de 2020

Um dia que reflete o outro, que reflete este

Uma soma de estrelas, uns tais descaminhos, portais que cintilam mesmo quando pareces estar sozinho. A nós, são apresentadas paredes inteiras de espelhos, num rumo de cacos que remonta a narrativa de quem somos e de onde viemos.
Amanheceu quentinho o dia, sem chamados para dimensões alheias de distopia. Ouço a correnteza de vento e caminho na tua direção pra chamar-te de novo ao feixe de luz que vem da calmaria. O dia anunciou outro novo dia. Outro além deste, outro que se reinicia, outro que antes apenas partia. Levo um pedaço do sol comigo, levas outro contigo, aquecemos os sons da vida e partimos. Aceitamos cada vinte quatro horas, cada vinte e quatro metros abaixo do nível do mar, aceitamos com a condição de ambos seguirem vivos. Seres atemporais, repetimos.
Nem toda a partida fala de ausência, mas toda ausência fala de retorno. Por ora, por necessidade de imersão ou por rebeldia. Recarrega e reflete a tua energia. Depois, costura a brecha e volta.
Não escrevo sobre partituras, nem partículas ou profecias. Confuso a fala como conduzes os teus dias, então regressa contigo e não empaca, vais estar sempre além do perigo. Atenta quando olhares ao longe, tens o sinal de que ainda firme sei ler o teu sexto sentido.

No reflexo de chuva e Sol é o paradeiro da cigana

Se perguntares onde anda a cigana, te digo que vai protegida de ti e do teu carnaval. Se procurares onde anda a cigana, amigo, aves malandras não são de Pombal. Vestida de rugi, cospe marimbondo quando cai o Sol. Sabe do risco, adianta o bochincho e corre na direção do banhadal. Pula arapuca de saia pra te alcançar, porque sabe de ti que és emocional. Quanto achas que és de perigo, se nem sabes desviar da espiral. Ora, bombeia só!
Que não seja a tua imagem um espelho, a menos que queiras queimar numa pira comigo e o meu batom vermelho. És de incêndios, não de fogueiras. Bem o sei.
Dobro a aposta se não perderes teu tordilho quando me desejas mal.
Risquei o fósforo e só saiu faísca, guardei o cachimbo e fui bailar. Não andas comigo, porque sou teu perigo, dizes. Malandro bonito, sou eu contigo quem vai se cuidar. Trovador aguerrido, nem és de grunhido, que queres inventar ?
A chuva não molha o terreiro quando a figueira é fechada, saibas.
És de meia hora e outros tempos, tolos temperamentais e bruxos desatentos. Ciganas que pintam celeiros, tropas de nefelins e asiática turca que é meretriz. Nada do que não saibas, nada do que não queiras e que não tenhas vivido. Queres nada, e recebes de tudo. Quero muito, e sou moribundo. Distópicas ironias, somos. Mas do pouco nasce a flor de mandacaru, nasce do incêndio e do terreno que nada tem de ungido. Nasceram com elas, outra vez, as luzes mistas e o fim de tudo o que se havia perdido.
A cura é reflexo de chuva e sol na água rasa da taipe de açude. Sossega e dorme tranquilo, porque vais entrar sem chuvisco, nem guarda-chuvas de Pompadour. Na vida de agora, não vais mais na direção da correnteza, ainda que queiras, não enveredas mais na contramão.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Espelho atemporal (poesia do que não se vê)

A poesia está no ser e naquilo que o ser reflete ter sido. Do sujeito que deixa parte de si, um achado virou poesia em duas linguagens. Dualidade pouca é bobagem muita, mas disso nem sempre se está atento pra enxergar. Do que foi perdido ou ficou abandonado, quem foi o senil desatento, genioso e sem rosto, que deixou matéria-prima tão rica no cenário do sol entardecido daquela quinta de primavera embalsamada. Deixou à mercê doutros desatentos, que não sabiam sequer fazer do isqueiro uma arma de sutileza emprestada. Tudo vira representação do real quando a realidade se faz nítida e pede pra ser flagrada.
O dono do cigarro e do isqueiro talvez os esteja buscando, como buscava saciar-se no vício quando montou seu kit de sobrevivência pra estrada. Sobrevivência ou fuga, tecidas como sinônimos no rumo dos andarilhos, aqueles que vestem a túnica e se embriagam no que é fugaz e inevitável: a vida.
Quem pensa na fuga é filho do descaminho, diria o poeta se aqui estivesse, mas ele foi pra longe buscar a realidade noutras sombras.
Pude ver a fumaça viva naquela bituca mórbida e apagada. Podia ver o dono com ele entre os dedos. Distraído, peguei-o meditando nas vaidosas formas daquela efêmera e autêntica tragada. Ficamos ali mais que alguns minutos, assistindo ao espetáculo da luz refletida naquela posse de alguém que estaria, quiçá, liberto.
Teria o dono perdido seus pertences a um propósito, encontrar-se - pensei um tanto contemplativa. Ficamos, então, emaranhados nas incógnitas que só seriam desvendadas se acendêssemos o cigarro, mas não o fizemos. Pra isso, precisaríamos da digníssima vaidade de sermos os soberanos donos ou, seus apossados. Nosso caminho, porém, era outro. Quem sabe pro entardecido sol de uma quinta de inverno, num tempo paralelo a este, apresentado a mim numa imagem disforme e encomendada por um ideal de muitos: o dono está na companhia de seu cigarro.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O leitor de Espelhos

Os ciscos que parecem próprios de migalhas da estação são semelhantes àqueles que se vê num salto de paraquedas.
Quando abriu-se a janela e as bergamotas viraram poesia, abri a página de escrita em que o dono das palavras estaria mais uma vez presente.
Não sabe por que de ti transcrevo tanto, diz a minha destreza pra fazer o tema contigo ao lado. Questiona que se sou redatora, se sou irreal e se sou impostora, não deveria saber ler tanto. Mas as inquietudes são antes de natureza tua, e por isso, não vos aflijais. Escuta sempre o silêncio ensurdecedor das palavras que te chegam, vais progredir. Se estou suspensa em meditação ou corda, te alcanço pra te alcançar o antídoto. Ora, não és de cura, és de escrita, dirás. Sou de antídotos, te digo.
Vais questionar, pudera, quem de ti percebe o raso e o fundo nem sempre é o teu eu dominante. Vais suspeitar que a doçura tanta é camuflagem muita, pra que Dalila corte a força de Sansão tão logo ele a receba. Sossega. Olha com o desdém que ainda não tiveras, se puderes. Enxerga as imperfeições de quem pensas elevar-te ao pedestal de uma divindade. Não sabes nada além do que o espelho te mostra, aí mora o teu perigo e o teu afago. Pensa, se é espelho é espelho. Reflete a tua cura, pois. Nesse sentido, não tens que buscar nada além do que te habita. Te conheces, te alimentas todo dia, te clareia e te escureces, sabes do que precisas pra soltar as tuas asas de arcanjo terrestre e planar pelos vales donde semeaste o melhor de ti. És terra fértil sem precisar de chuva, e não sou eu quem digo, fala contigo o teu reflexo todo dia e nele não há falso profeta que viva em permanência infinita.
O homem duplicado de Poe não lho temeria, diria que és tão tolo quanto ele, mas podes escolher ouvir a sereia de Esther, Scliar é mais cancioneiro quando fala dos duplos. Na fala de muitos pegue o terceiro viés, fale a Borges que a tua Estela também é a dele e questione-o sobre o caminho.
Mas nem a literatura, nem o oráculo, nem a cigana, nem a astrologia, tampouco a ciência, nenhum destes será tão preciso no acerto da dose do teu antídoto quanto este teu, o que vos fala: espelho.
Nele não há generosidade ou superestima, não há embaço, não há neblina, há reflexo. E o que há de ser, há de ser. Vieste ao mundo pra ouvir de ti quem és, não do outro, nem da outra, ou de outrem.
És quem sabes ser, tens o que podes ter e se queres, queres. Quanto de mais belo pode haver nisso? Pois te basta ser o andarilho dos trilhos da estação da luz, te basta ser aquele que é poucos, e que vive muitos. A ti basta ser, sobretudo, o que sabe ler espelhos.

Espelho 236

Quando segurares o espelho, agarra-o firme na tua mão pra não correres o risco de perder o reflexo.
A tua imagem de caos é a mesma minha e a tua imagem de equilíbrio vem de mim. Espelho e reflexo são complementares, daí que um não espelha senão o outro.
Mas tens sempre cuidado, porque o espelho não reflete o que queres, lembra-te disso com ternura, porém. Ele reflete o reflexo de quem o segura agarrado, e não vai soltar até que o aceites com olhos que veem sem o véu da vaidade. Quando assim o fizeres, em ti não chegará mais o espanto que traz o embaço. É preciso que recebas o espelho que te oferece o Aqueronte. Este, é o único capaz de falar-te da forma que a vida tem de pôr no rosto uma cara que a alma desenha. Agora, olha tranquilo os ares daquilo que vem, não te apieda de quem sequer sabes que és. Antes, saibas, se o espelho quebrar, ainda terás o mesmo reflexo nos cacos. Com a condição, apenas, de dimensões menores e de ângulos que ainda não tinhas visto.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Espelho, Espelho Meu!

Espelho que reflete as doses homeopáticas de sintonia cruzada, existe alguém mais inteira do que eu?
Abacaxi ou granada, é o que compõe as incansáveis distopias da noite que logo seria página acrescentada. No livro que se constituí em ritmo de grão em grão, toda página que vem não é virada, é acrescida e cuidadosamente organizada conforme a necessidade da ordem de ser rememorada. Na memória, porém, o que chega é sempre eleito pela seleção da nossa vontade. Sempre disposto de acordo com a tua vaidade, se ausente ou não, não há perspectiva que possa competir com a vontade. O querer é sempre senhor de si. Quando queremos e escolhemos o que queremos, transformamos o que tem que ser em algo feito do nosso jeito. Do contrário, quanto de nós deixamos de encontrar no que ocorre porque precisa ocorrer, mas que ocorre alheio a vontade daquele que ainda está submerso em marasmo? E este contrário, é feito de insatisfação, de inquietude e de aflição. Se há de ser, há de ser. Não há fuga possível, nem perspectiva mutável. Há o que é, e isso não se discute. 
Quando aprendemos a perceber as possibilidades e as necessidades de fazer ser de nós o que há de ser, a varanda vira pista de dança, e a janela é o aconchego ou o convite pro "mistério infinito de tudo". O segredo que chega com o relâmpago do tempo que virou no repente. Tão repentino que é feito de faíscas, estreito em suspiros e dominante do indomado com uma só mão. Os sustos já não assustam, e a chuva só assiste. Maravilhada, deságua desabando a matéria da imensidão. Molhada, encharca a terra seca que só andava aquecida no sol de verão.
A chuva é o equilíbrio. Veio porque havia necessidade de lavar, de levar e de elevar o que sempre foi genuíno. As canções que transbordam são as mesmas, de sons transpirados. Aqueles, os que coordenam um ritmo desajeitado e impreciso, mas sempre junto, fazendo barro virar argila pra transformar em obra prima aquilo que parecia desgastado. Descansa, retoma e refaz a arte. Disso tudo, novas doses homeopáticas chegam sempre que se precisa lembrar.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Sobre a Intensidade

Os raios que insistem na fluvialidade ainda são intensos. Em meio às nuvens desenhadas como propositais pra serem sentinelas, os fios de luz que lhas transpassam são ainda enérgicos e direcionados. Nenhum acaso é mera magia ou encanto, todo o pontilhado tem uma linha que liga cada ponto ao outro.
Nesse caso, se não perceberes que venceste o bloqueio, te levo carregado e te ensino a desvelar o oculto. Não eu de energia mortal, mas eu de energia vital.
Eu que carrega os dons de ser abacaxi ou granada, quente ou fria, todas as fichas ou nada. Essa Eu de calibre alto, de fala estridente, essa Eu alcalina e volátil.
Nunca trouxe amor de volta em três dias. Fui atenta pra trazer o amor de volta em três voltas, isso sim. Vou e volto, busco de novo e mais uma vez. Não é lábia profética, é sincronia antiga de coragem pouca e vontade muita. Trago o amor de volta do poço do submundo na base do anestésico, pra lhe poupar a dor de ver o caminho percorrido por besteira. Não se poupa amor, se poupa o amor. Na poupança de quem economiza desde que viu reflexos de possibilidades, nunca falta saldo. Cresce o débito na medida em que o coração amolesce. Mas sobe o crédito se o fizeres por vaidade ou por gosto. Saibas, pois, que a economia do amor precisa ser feita na abundância do cuidado metafísico. Cuidado que apara arestas, que deixa fluir do tempo os raios necessários pra encontrar a alvorada outra vez aberta.

Metorfose

Não soube trazer o amor de volta em três dias, entendeu seu pouco talento pra cartomante e partiu.
Hoje está em lugar algum. Tentou e falhou, falhou e tentou de novo. Na cidade maravilhosa, o chão de ladrilhos vai até onde seus pés não alcançam. 
Continua.
Impaciente, acende o cigarro que não vai fumar, senta no cordão da calçada e joga outra vez os dados. 
Espera.
Outro casulo, borboleta ou mariposa? Não sabe, nem quer saber. Outra janela, viste ? Sempre elas. Janelas da alma, toda vez que sorri. Por isso adora janelas, é seu fraco, nem o sabia.
Agora sabe.
Vai escrever de novo. Sorte no jogo de dados, nem questiona. Outro texto, mais janelas. Menos cordões, nenhum cigarro.
Prepara os dados e joga outra vez. O olhar é oblíquo de novo, novo resultado. Agora questiona.
Sentada, não sorri.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Espelho

"Meu espelho é labirinto" disseste alertando-me.
De seus reflexos, porém, vejo temperança, força, e ensolarada coragem de quem vive os cliclos. Não carrega o clichê da fênix, mas de hora em hora se reinventa, se reconstrói, se escalda, se alivia, e me liberta. Um sobrevivente sempre disposto a estar morto, é genioso e cheira a incenso. Intenso, um sol audacioso. Não se limita, e jamais imita. Irrita, quase sempre por falta de querer o contrário. Está sempre aceso e nada gentil, mas é feito de água, de melodias, de pólvora e de isqueiro. Nunca é o mesmo, também não é muitos. Com sutileza e cuidado, sempre é os seus e é o único. O que faz dele novo a cada instante, 604 pessoas em si, quiçá o dobro disso. Nunca foi de algodão, tampouco de penugem. Ele é o tecelão de suas virtudes, bem como das curvas em que não se prende a crenças nem a cruzes.
Autêntico, é um sol de gente. Quântico, desconhece o caminho que fez a serpente. Mas do Éden herdara a verdade. Daí que não se reprime, não agoniza, nem se exime. Impera totalidade, mas não esnoba quando encontra sintonia, ainda que pareça tarde.
É feito de afagos, mas alimenta incêndios, não fogueiras. Se reflete no céu de outono, o mais bonito do ano. Dispensa represas e não se dissolve no tempo. Antes, porém, solidifica e liberta o que já não serve.
Não se perde, nem faz perder. Transgride, emerge, resisti. Suspira, porque é vivo. Respira, porque é livro. Transcrito de várias formas, é casa e casulo, sempre borboleta, é tudo.
Para a escrita é sem fim. É vertente rica, porque segue no curso sem asas de mariposa ou de querubim. Não é caído, é cadente. Acende, porque é ascendente. 
Tal como as sensações que chegaram com o sol, quase sempre incertas, pulsantes e feitas de sorte.
Todo o imaterial que alegra o coração que expande, por si já explica que é gigante. Compõe-se de angulosas formas tridimensionais que irradiam ondas de uma teimosia e nobreza que é secular.
Com o novo, de novo, se encontram os avessos Rio's. Transbordam, esquecem os diferentes mundos que habitam e fundem-se em superfícies futuras de astros reerguidos, cintilantes e calmos.