Os ciscos que parecem próprios de migalhas da estação são semelhantes àqueles que se vê num salto de paraquedas.
Quando abriu-se a janela e as bergamotas viraram poesia, abri a página de escrita em que o dono das palavras estaria mais uma vez presente.
Não sabe por que de ti transcrevo tanto, diz a minha destreza pra fazer o tema contigo ao lado. Questiona que se sou redatora, se sou irreal e se sou impostora, não deveria saber ler tanto. Mas as inquietudes são antes de natureza tua, e por isso, não vos aflijais. Escuta sempre o silêncio ensurdecedor das palavras que te chegam, vais progredir. Se estou suspensa em meditação ou corda, te alcanço pra te alcançar o antídoto. Ora, não és de cura, és de escrita, dirás. Sou de antídotos, te digo.
Vais questionar, pudera, quem de ti percebe o raso e o fundo nem sempre é o teu eu dominante. Vais suspeitar que a doçura tanta é camuflagem muita, pra que Dalila corte a força de Sansão tão logo ele a receba. Sossega. Olha com o desdém que ainda não tiveras, se puderes. Enxerga as imperfeições de quem pensas elevar-te ao pedestal de uma divindade. Não sabes nada além do que o espelho te mostra, aí mora o teu perigo e o teu afago. Pensa, se é espelho é espelho. Reflete a tua cura, pois. Nesse sentido, não tens que buscar nada além do que te habita. Te conheces, te alimentas todo dia, te clareia e te escureces, sabes do que precisas pra soltar as tuas asas de arcanjo terrestre e planar pelos vales donde semeaste o melhor de ti. És terra fértil sem precisar de chuva, e não sou eu quem digo, fala contigo o teu reflexo todo dia e nele não há falso profeta que viva em permanência infinita.
O homem duplicado de Poe não lho temeria, diria que és tão tolo quanto ele, mas podes escolher ouvir a sereia de Esther, Scliar é mais cancioneiro quando fala dos duplos. Na fala de muitos pegue o terceiro viés, fale a Borges que a tua Estela também é a dele e questione-o sobre o caminho.
Mas nem a literatura, nem o oráculo, nem a cigana, nem a astrologia, tampouco a ciência, nenhum destes será tão preciso no acerto da dose do teu antídoto quanto este teu, o que vos fala: espelho.
Nele não há generosidade ou superestima, não há embaço, não há neblina, há reflexo. E o que há de ser, há de ser. Vieste ao mundo pra ouvir de ti quem és, não do outro, nem da outra, ou de outrem.
És quem sabes ser, tens o que podes ter e se queres, queres. Quanto de mais belo pode haver nisso? Pois te basta ser o andarilho dos trilhos da estação da luz, te basta ser aquele que é poucos, e que vive muitos. A ti basta ser, sobretudo, o que sabe ler espelhos.