Mais de uma sintonia de verde e na cidade do sol os morros cintilam.
O amargo do chimarrão está incompleto, pela primeira vez em muito tempo, seu gosto é de ausência. Uma das caras do verde é ser de esperança, outra, é que pertence às cores frias.
Gosto de entender as vontades do verde. Às vezes, sinto a sua vibração de picuinha, porque ele seria o favorito, não fosse a existência do vermelho. Enveredei pelo vermelho porque ele carrega o peso das sensações mais opostas. As melhores e as piores, é seu dom, daí em ser o eleito. Por sorte, verde e vermelho estão juntos na bandeira da terrinha amada. Comemoro discreta a parceria temporária e sigo observando.
Dançam as luzes da ponte que atravessa a baía, formando um tapete de geniosas estrelas que se misturam, ora amenas, ora agitadas. Compondo tamanha beleza, o céu de outubro, que está limpo, recebe mais uma lua de primavera.
Com considerável distância, brilham imparciais os morros. Esses são brilhos oniscientes, podem tocar o Cristo e a sua temporária pequenez de dar dó. Se a água do mate estivesse mais quente, eu diria que o paraíso estava ali.
Não é o ópio da erva mate que faz meu pensamento ocupado, embora a fluidez do verde oliva seja permanente no piscar dos meus olhos.
Somos frutos da mesma árvore, a minha inquietude com isso ainda está presente.
Convocam-me impacientes os Quero-Queros. Querem tirar-me do silêncio, dizem. Acham que estou submersa na energia da noite, e que isso traz o risco da desatenção.
Peço que se aquietem, que ouçam comigo a sintonia do universo. Conto-lhes que estou atenta a cada folha soprada no vento, que ocupa-me o pensamento a reflexão sobre as tantas formas de amor, sobre particularmente essa, a que une solidões.
Sigo percebendo os casais à volta, dois deles parecem feitos de solidão, os outros são mais apressados, coisa da fluida superficie do que entendem por amor. Superficie que reflete nas águas de Iemanjá e eles parecem sentir que estão embalados nela, que por rara coincidência, não está calma. Essas são águas que vivem, carregam vidas deixadas e vidas que seguem. São águas que tem cheiro de solidão, não qualquer solidão, mas sempre aquela mais conveniente.
Percebê-los assim é covardia. Reconheço a minha tendência a invejá-los por não estarem sós.
Sigo inquieta, principalmente pela consciência de como estou.
O meu companheiro de todas as horas estava ali e ele já não bastava. É possível que eu tenha, pois, finalmente percebido que o chimarrão é uma solidão que não escolhe estar só. Resolvi também invejá-lo.
Apesar dos descaminhos do momento, a serenidade ainda é maior em mim. Sei que a vontade deve ser vencida pelo dever, e assim o faço. Três vezes o faço. Três vezes acelerei a reposição da água, três vezes pensei em caminhar até a solidão cansada, e três vezes fui vencida pelo dever.
Acabou a água, recolhi o chimarrão e as luzes retomaram o brilho natural do cotidiano.
Percebi que o silêncio fala. O silêncio grita e há quem o escute, embora as comunicações por telepatia nem sempre são eficazes como prometem as ciganas.
Guardei o riso no canto da boca e fui embora tranquila. O verde, afinal, acolheu-me na primeira conotação que lhe dou e ajudou-me. Fez seu papel e logo eu estava em casa, deitada e coberta com um manto de serenidade e solidão.
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