segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Gaia e o Marlboro

 A fumaça do Marlboro está na minha janela. Abri, ouvi, despi.

Efêmero, diz a tragada da Gaia. Tudo em sintonia, menos as vontades compatíveis que caminham solitárias.

Nos jogos de acende e apaga, os vagalumes foram extintos, mas ainda há em ti a beleza da graúna. Sempre houve, sempre haverá. Em cada uma de mim, um universo múltiplo e que busca o teletransporte no som do silêncio das avenidas. Barulhos e estalos, atalhos e angústias no meio das vozes sem rosto que chegam também nesta janela.

O Marlboro atravessa o cheiro de maresia e de incenso que chega antes dos meus pés neste terceiro apartamento.

Repete o coração umas batidas desengonçadas. Regulado na preocupação de se manter em sigilo, nunca quis te ocupar, nem o pretende. Aceita, porém, o quanto é difícil não controlar o incontrolável. Desengonçado também é de impulso. Não pode gritar, mas quer falar alto, esquece que o teu não é surdo.

Outro Marlboro, quase te encontro. Não fumo, mas leio a fumaça que mesmo não sendo tua, espectra a tua imagem em fios. Ilude meu senso que te busca num riso que não é teu, e logo se dissolve no vento e some. 

Olho as tragadas, respiro inquieta e ansiosa. Quero a tua permanência longa, mas não te ofereço doses de elixir pra definhar. Aquieto, sossego e adormeço. Se definhares, definho. Dilemas. Desejo de longe que permaneças iluminado e que ouças a voz da Gaia que te diz sobre este fumo, "Efêmero". 

Não temas, mas queiras levantar. Vais tragar o vício, a alegria e o cigarro. Vais deixar passar por ti, todos os que te sugam e os que te calam. Sente a presença do teu Marlboro, qual o faço. Ouve a tua intuição Pessoana, pra saberes o que te cabe e o que te sobra. Nem todas as vozes querem te acalentar, sabes. Mas todos que falam, olham com atenção o teu lugar, lembra-te. Não te recomendo chiclete, mas alegrias. Sabes que ainda não podes, sei que sabes que deves. Resgates.

Vais, olha as cinzas e renasce. Acende o teu Marlboro, limpa o teu cinzeiro e a tua energia. Logo, vais apagar o cigarro e viver em constante sinestesia. Outros caminhos efêmeros te esperam, este não é mais um respiro só teu. Tens agora mais pernas que uma centopéia, mas sempre terás o teu rumo pelo teu próprio coração.

Cigarro acende, ascende a essência. Fica o teu cheiro, espanta  o teu entrevero. Te encontra contigo antes do novo ciclo que chega pra ti. Encosta na tua janela, abre as cortinas, respira sem o Marlboro, olha os risos que são teus e sorri.

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