No resgate do que sobrou do jantar de ontem, uns grãos de tempo requentado estão adornando o teu prato de porcelana francesa.
Bate à porta a vizinha que anseia por incógnitas, mas agora ofereces a ela, pão. Não soltes da mão de quem te segura com tamanha firmeza, és ainda farelo demais para pensar em homogeneizar agora.
Na mesma medida, não aflige o teu coração ainda, espera a canção virar grito de harpia, depois chorares-á de rir. Quando cheguei já estavas imersa, não podia mais pensar em resgatar-te sem danos. O problema de quem se acostuma a terrenos inférteis é que deixa de crer que pode ser árvore de frutos. Mas não queixa as tuas mazelas pras paredes, elas absorvem e te devolvem sem progressão. Ao invés disso, saibas que até as areias da praia desdenham o que foste nos últimos dez anos. O universo, porém, confessou-me em segredo que os males do excesso e da falta já não cabem em ti, e que isso trouxe-lhe uma nova essência para a poção do amor que leva nas unhas nesta última semana de novembro.
Minha bela e harmoniosa sintonia, vou contigo pegar mais flores de outono. Vamos juntas para que não penses mais que a oportunidade é apenas uma ilusão da tua vontade. Somos filhas da terra e vamos caminhar sobre as folhas para que te fortaleças e ressuscite em esplendor de libélula no verão.
Sei que viraste cinzas mais de uma vez, daí que o teu sono andava faltoso e a tua coragem carrancuda contigo. Mas vais planar como as aves do paraíso a partir de agora. Sobraste onde até então estavas encaixada porque transbordas do que foste no tempo em que a luz da lua não te alcançava os dedos.
Vai, vai ser gauche na vida que o poeta te sustenta nas asas prateadas que tem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário