sexta-feira, 24 de julho de 2020

Lar da namoradeira

Namoradeira na janela serve a água do chimarrão. Ensaia o salto, faz que ri, se molha e recua. O acaso é um destino. A namoradeira é ressabiada, não mergulha em água rasa porque é faceira em solidão. Ela usa fita amarela no cabelo, carrega uma estrela em cada orelha e luminárias no coração. A namoradeira toma chá de cidreira pra adormecer, adormece e sonha vendo que o mundo acordou mais passível a florescer hoje, do que ontem. Namoradeira é bicho de pelo duro e flor de pessegueiro. Ela sente o vento levar os cabelos, deita na areia e sorri, em dia de Sol e em dia nublado. Se perfuma pra sair, é cheirosa pra chegar, porque olha o caminho.
De novo na janela, casa de alma da namoradeira. Espiou as constelações e viu nelas infinitas linhas marcadas. Tênues e antigas, eram linhas enamoradas. Contou os vagalumes e pensou no retorno, mas sua única volta era pra onde está agora. Lar da namoradeira não é mais a terra de ventania, porque a namoradeira não sabe ser metade. Deitada, distante de todos e do que antes lhe pertencia, confusa entre pele e vestido azul, ela ouve o som do piano que vem de uma janela ao lado. Acomoda os pés entrelaçados, olha o céu e soluça. Mas o choro da namoradeira não tem som nem pesar, ele é feito de lágrima de sereia e rememora o inverno na pampa descampada.
De novo na janela, por regalo da cigana descansada. A namoradeira é risonha e carrancuda, a cigana não sabe que ri. Engole o riso e o soluço. A namoradeira não sabe nada além do que disseste , além de quando lhe disseste que é ela a "hippie do ri".
Descansa a namoradeira, não quer mais ausência de melodia ou onda dissonora. Acomoda os braços, devolve ao Rio tudo o que não é de água e sorri.

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