quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Mulheres de areia

 Nós, as mulheres de areia, somos também de pó. Dissolvemos, separamos, unimos e ocupamos. Nós, as mulheres de areia, não sabemos andar só. Só andamos por onde passam as pedras da água do rio, só viramos sereias quando a chuva é mais forte e silencia os pássaros do anoitecer.

Nós, as mulheres de areia, brindamos e corremos na direção do fogo, porque é nossa natureza ser só, mulheres de areia, de fio e de nó. Nó de três, nó de arame farpado, para mulheres de areia, desatar é no sopro do que fica em dominó.

Somos correntes de ouro e felpas prateadas, somos do tronco da árvore que bate no céu e encontra a porta aberta, sempre que o acesso ao subsolo é necessário, mais uma vez.

Nós, as mulheres de areia, não temos direção nem caminho, somos de passagem, somos a brisa e a aragem que esfria teu coração se te puseres a pleitear atenção inóspita. As mulheres de areia são ilhas e são o destino, são poeira no vento e são guarda-sois coloridos, mas são tua água do deserto e nisso que o susto do temporário é além das distintas flores sobre a mesa de jantar.

As mulheres de areia são o filtro de barro e a cachoeira no inverno, mas as mulheres de areia jamais te desolam, pelo contrário, mulheres de areia recolhem os cacos e pintam novos quadros em paredes vazias, pela simples necessidade de fazer colorido no que é cinza de outono.

Somos as mulheres de areia e somos as cinco dimensões que podes alcançar sem sair do teu lugar, ainda que não tenhas a pretensão remota de enrolar nós, nos cabelos de pó das mulheres de areia movediça.

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