domingo, 1 de dezembro de 2019

Lágrimas de Vênus

   As lagrimas de Vênus chegaram quando não se esperava mais as astutas pretensões de escritura pelos fantásticos animais terrestres. Evidentemente, essas lágrimas não são comuns. Se são lágrimas de Vênus, vem de uma divindade e daí o seu peso maior. Essas lágrimas de Vênus são para lavar dezembro, para levar novembro e para encerrar com o fio da navalha o que precisa ser encerrado. 
   Vênus não é divindade que esteja à mercê das vontades do tempo. Embora ele a domine em algumas circunstâncias da eternidade, esperar está longe de dominar as suas atividades na terra. Vênus sempre sabe o que quer e não se cala quando a voz está em sua garganta. Afiada, Vênus é ardilosa, é perspicaz, mas é piedosa. Ela tem o que quer quando está disposta a ter, desde que isso não lhe custe mais que o peso do ouro. Com isso, porém, não se deita no macio veludo da vaidade. Ela sabe que a sua força não vem da espuma do mar como seu nascimento, mas vem de suas lágrimas.
   Por que Vênus chorosa pode ser resultado de frustração? Não deveríamos supor tão facilmente que o tom suave do seu lilás, atribui às lágrimas o dom da transmutação passageira. Da água viemos e à água retornaremos, não ao pó, à água. Pura e livre das chagas da humanidade, a água libera tudo o que ficara aprisionado, por isso Vênus chorou. Mas nem mesmo a deusa do amor foi capaz da autocura. Vênus chorou para colorir o último mês do ano com a cor da transmutação. Sua mais bonita habilidade está em banhar-se no choro para não ficar atolada nas lamas de suas realizações adiadas. É assim que, embora parece triste, Vênus só estava em seu processo natural de fazer vir a si as coisas que deseja. A tristeza, para ela, cabia num pequeno globo de cristal, onde guardara a última lágrima da noite. Naquele dia ela olhou o sol como o ainda não tinha visto, ele estava solitário e parecia sereno no seu movimento de entardecer. Vênus não soube ser solta, prendeu os pés na grama e fez os últimos raios que lhe chegavam ficarem agarrados aos seus cabelos para que ela sentisse o calor de quem não se importa em dormir sozinho todos os dias. Não era pelo sol que Vênus estava enamorada, mas pela sua capacidade de iluminar a si e aos outros.
   Mas os pobres mortais não a compreendiam. Disseram-lhe que a queriam para si, mas que a competição era injusta porque Vênus amava à Baco, uma outra divindade, como a sua própria natureza. Vênus sorriu ao ver tamanha ousadia, e novamente chorou. As lágrimas de Vênus na ocasião foram de pesar. Quão egoísta poderiam ser os homens que no auge de sua audácia a queriam para si como um enfeite bonito para suas cabeças vazias, Vênus se questionou. Ela chorou, recolheu então as lágrimas em uma banheira sedutora, em que afogou aqueles insanos, como se fossem pequenos girinos presos pela própria cauda em formação.
   Vênus não é a tirana, mas insere suas marcas em todos os lugares que habita. A sua presença é capaz de encerrar padrões oriundos do Eden. Vênus é prima de Lilith, para quem não a conhece. Mas neste primeiro dia do mês de Dezembro do ano de 2019, Vênus é o tom suave de lilás presente no esmalte das unhas desta que lhos escreve. O nome, na certa, fora dado por algum desavisado (mortal, por natureza perversa) e pretensioso que ousou chamar a um adorno feminino tão singelo, de Lágrimas de Vênus. 

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