domingo, 8 de dezembro de 2019

A fonte da escrita sem fim


O que desperta o teu interesse naquela que é incógnita, vem da tua curiosidade no espelho. Sabes que, assim como o pai é exemplo do filho, o mestre também inspira o discípulo. Aqui, nada há de bíblico, exceto a poesia.
Quando ela lhe confidenciou as rosas vermelhas de Capitu, quis ver no teu rosto o orgulho. Esperou de ti exatamente o olhar de satisfação. Nem era pra ela, nem pro destinatário que enviou as flores, mas pra ti. O que explica a admiração do homem, a vontade de ser aceito e o desejo de ser aplaudido ? Talvez as suas divagações femininas que ululam o pensamento em madrugada de tempo frio em pleno dezembro. Talvez, o retorno dos que nunca partiram e que continuam lhe alimentando o coração de alegria só pela metafísica certeza que está igualmente na narrativa do outro.
Não há fórmula para a juventude, assim como não há receita para escolher a quem o afeto se destina. Mas como disse aquela que é sábia e que é sabiá, o nosso querer é sempre nebuloso. Andamos a passos largos esperando encontrar o que se havia querido há segundos já idos, daí que o presente nunca há de estar em sintonia. A insaciável fome é pelo desconhecido, disso também lha ensinaras. E se o que lha toca os dedos é o cintilar das letras bem dispostas, saibas que a tua harmonia também está ligada a isso. Se já lha tivesse deixado, como é da tua natureza fazê-lo ainda que a si, ela teria se perdido no descaminho das sensações que nunca viraram escrita. Teria procurado uma casa estranha de cinco cômodos, deitado na cama da sala cujo colchão é feito de livros e, acomodada no conforto do lençol de algodão, teria esquecido a que veio para tão longe. Tão longe que é matéria de sonho. Sonhos que lhe ocorrem com uma frequência quase  insensível, e que ela  ainda sabe distinguir tais dimensões. Por sorte ou por reciprocidade, seguiste aqueles que permanecem na plateia. Segues aplaudindo quando as cortinas se fecham, segues perguntando donde vem tanto dom pela palavra, segues querendo estar presente mesmo entre os tantos desejos nuviados que dominam o teu coração humano.
Saibas, nada há de irreal em estar presente. O contrário do que está óbvio é só demagogia. O que ela quer de si, nada tem a ver com coisas outras, só que cuides. Cuides do cuidado pra não perderes o brilho da loucura que escolheras para a vida, matéria prima divina esta, que só pertence aqueles que amam o improvável.

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