Pra alguns o tempo não passa. Pra outros ele passa ligeiro e impiedoso. Mas pra aqueles que sabem vivê-lo, ele passa tão bem, que poderia este tempo dar mais quarenta e nove voltas de doze meses e nem mesmo assim as suas marcas mais pesadas seriam percebidas.
O tempo sempre será aliado fiel daqueles que lhe são gratos, e que sabem viver as suas curvas com alegria.
Eis, meu guri, que nessas curvas percebemos que nem só de permanências vive o homem. É do pulsar pela mudança que desabrocham as melhores possibilidades de nós. Disso bem sei, o sabe o tempo e sabem as noites enluaradas em que foram tecidas todas as escritas que já recebeste.
De silêncios nascem jardins, e flores que têm nomes comuns, como os de nossos filhos. De falas curtas nascem fronteiras identitárias, literárias e culturais. As fronteiras são rapidamente unificadas pelo sentimento das novas sensações, cores infinitas que transbordam o mosaico que compõe o deus do vinho com a Não deusa do amor. Forma-se, então, uma sincronia mágica, podem ver os atentos. Essa sincronia é o que faz a essência guardada no pote de ouro, que não está no final do arco-íris, mas no final da ponte que divide as águas da baía. Cada espaço entre as sextas-feiras do ano ímpar, foram as doses necessárias pra transbordar aqueles capricornianos corações rochosos. Estes que não são meras engrenagens, ainda que Ricardo Reis me contradiga. Os homens e as engrenagens, são uno e são múltiplos. São metades completas do que julgam ser inteiros. São homens metafísicos, de uma beleza sublime que só as divindades da mitologia podem compreender. Homens que não são máquinas, contudo, perdem-se por acreditar que são vazios. O óbvio se alimenta do inverso. Estes materializam as imagens disformes que se vê em manhã de geada, então sucumbem e tornam-se parte da escrita borgeana. São engolidos pelo tempo e pelo vento e não podem ser salvos, nem pela piedade majestosa da sagrado sopro da existência.
Mas do divino homem não me apiedo, não me inquieto, não me aborreço, não me questiono, não me envaideço. Nem eu, nem o tempo. O que penso de si é calmo, é paciente, é generoso, é iluminado e é audacioso. Antes, porém, considero o que pra o astuto e corajoso, Saturno mandara falar. Emposta a tua voz guria - sussurra ao meu ouvido - leva pra que ele receba o recado que é meu.
Eis que lisonjeada e faceira, trago as tuas verdades mais uma vez, como uma porta-voz do universo. Nada que já não saibas, bem sei. De novo, porém, apenas o som que te anuncia a beleza da vida. Quem a tua existência canta agora, é a Não Vênus, que fala sem melodia e sem chiados. Apesar disso, fala molhado e quente, aveludado e transparente. Numa fala que te toca suave, chega em ti como os taninos das taças que entornas querendo contigo a mágica das luzes. São palavras aquecidas no tempo e envoltas no desejo de tê-lo consigo e de trazer-te a boa nova. Aquela sobre o melhor dos mundos, em que se reencontram os dispostos, iguais e submersos, e concebem juntos em horas infinitas a pequena morte.
Morres desfolhado agora e renasce em broto novo, vívido, faceiro e corajoso. Retoma a tua altivez de tronco largo e robusto, árvore sólida que és pra os galhos fortes que de ti hão de surgir. Uma nova espécie, resultado do casamento da raposa com o rouxinol, com a licença do Valença, amigo Alceu.
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