quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

As três fábulas da existência

Nas três fábulas da existência, a poesia dos que já foram faz das suas sementes a gênese do saber genuíno. Pros que ainda caminham, os grãos de areia definem o infinito que ainda lhes falta.  De falta entendem os que morrem, os que vivem e os que se dizem andarilhos dos dois mundos. A natureza do homem é estar no domínio, a sua escolha é estar ausente. Daí que sabendo sobre isso e sobre tanto mais quanto se possa imaginar, ele caminha sem pisar no chão toda vez que se recusa a olhar pro espetáculo que deveria estar aplaudindo. Buscamos sentir a troca de ciclos. Sedentos, nem sabemos o que mais pode nascer da fagulha que resta, mas encerramos. A sensação de deixar partir incendeia o combustível do que virá: utopia. Assim vivemos, assim morremos e assim amamos. Acalma a tua estrutura humana, penseis. Senta e acomoda os teus pés na terra, percebe quanto de ti ainda te resta. Somos todos carne, sensação e energia. A mãe terra quem disse, segue uma só vez sem questionar, sossega, segue a mitologia. Sentimos as temperaturas acesas por esses dias. Aceitamos, recebemos. Não somos corajosos o suficiente pra alcançar sinestesia. Sentir na pele jovem, receber o interno antigo e outras trezentos e sessenta e seis sensações dispostas a cada dia. Pensar sobre os ciclos significa palpar as contradições da ironia. Queremos acessar as linhas tênues que insistem em brincar de tecer os que fazem parte dos imperfeitos términos numa perfeita sintonia. Teia da vida, dizem.
De terapias salutares e luzes que brilham, chegamos na fase do recomeçar. Qualidade atribuída à energia, nem de Newton nem de budismo, falo da biologia. Recomeçar fazendo café sem açúcar, adoçando com temperança e canela a fim de equilibrar o próprio equilíbrio. Assim, de silêncio em silêncio a galinha enche o papo e nós os ouvidos. Quantas horas de agonia são necessárias para interpretar um silêncio? Faz parte dos ciclos, o tempo é o mesmo. Ora, no silêncio mora o que está desfalecido. Silenciar é o risco que a voz não deseja, porque o silêncio fala e lhe toma o lugar. Diante disso, invoco a incontestável morte pra saber que estou viva e pra saber de outras linhas que amarram aquela antiga teia do ciclo.  Não se escolhe a ordem. O que morre é o que deixamos partido. Desbotar e secar na agonia, no silêncio, no esquecimento e no desejo de ironia. É o que deixamos perdido em nossa vontade de despertar. Tomemos ciência do ocorrido, não se pode lutar com a morte, nem se pode prender a vida. Tudo, porém, se responde porque somos vitalidade sem harmonia. Tudo é feito de morte, cada solidão escolhida, cada companhia deixada. Mas tudo isso só é matéria disforme quando não temos a lente nos olhos que é da vida. Amor é o que somos quando estamos sozinhos. Somos amor pra desafogar na enchente. Não se pode impulsionar a vida pensando no condicionamento do destino. Não se pode intermediar o desejo com o argumento capenga de um escolhido cansaço. A morte e o amor são inseparáveis porque o amor é do que é feito as pernas da vida. O tempo é o que não se ausenta. Ele é o marido da vida. Estão de braços dados, segurando copos com duplas doses de Bourbun, na tardezinha do domingo.
O tipo de desconforto é proporcional às doses de essência que dedicamos à vida. Não morremos sozinhos porque escapa de fininho a vida. Morremos sozinhos quando apagamos o sopro do outro em nossa lamparina. Quantos de nós acesos, só restará fagulhas? Morremos de amor e de tempo, sempre que terceirizar a culpa, a escolha e a saída. A morte de quem vive em cativeiro sem jaula é mais cruel do que a culpa de ter vendido a arma para o assassino. 
A vida manda um recado, não sejamos seus inquilinos. Não fomos concebidos pra ser findos, somos atemporais e indistintos. Acompanha as três fábulas da existência, este é o teu último suspiro.

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