sexta-feira, 13 de março de 2020

O sol que é cisne

Quando o riso escapa, se solta de si e de tudo o que é pra delinear o descaminho traçado. Percebe-se, pois, que  fluido é tudo o que encontra um caminho de ser, e sólido é tudo o que sem esforço sabe a forma de permanecer. Eis as arestas.
São assim os contos fantásticos da existência dos cisnes. Flutuantes, garbosos, soltos e leais. Os cisnes pertencem-se a si, são donos do seu querer e não lho dividem com o efeito de sentir. A lealdade que neles impera, portanto, resulta da alegria de sempre saber quem são e o que não querem. Porque o seu querer não é bipartido, nem unilateral. São os cisnes, aves galantes, completas em sua essência e prontas pra dedicação integral ao amor. Os cisnes amam o que são, ainda que isso signifique amar avessos. Criaturas encantadoras, acomodam vagarosamente os braços sobre a mesa da varanda, acendem um cigarro e espelham a filosofia de tudo o que é mais belo e sublime, amar os que lhe são caros.
Não há encanto de seres mitológicos nos cisnes, eles são seres reais. Bichos da água, do tempo, do acaso e do solto. Os mais bonitos da sua espécie, porém, moram do outro lado do nosso medo. Criaturas radiantes, estão para o mundo qual o próprio sol. Eles inspiram a coragem de atravessar pontes e túneis, mares de ressaca e noites místicas que antecedem datas cabalísticas.
Os cisnes são apreciadores dos dons. Tudo aquilo que emerge da alma humana, lhes parece nobre e seguro. Carregar um coração que leva dois além do seu, é transbordar de essência magna do ponto máximo de sentir.
Nesse embalo e noutro, mais tarde, quem sabe. Numa manhã ensolarada de uma sexta-feira incomum, tudo o que parecia estranho transmuta em sintonia familiar. Mesmo em silêncio, tudo segue calmo, real e claro. Resultado do sossego, produto do anseio, a beleza de que aqui se fala não equivale a nada, além da simples estrada que leva à liberdade.

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