sábado, 21 de março de 2020

A música é para se cheirar, cheirar é sentir

A música tem cheiro, sempre tive essa sensação. Depois de buscar entender por que, com alguma frequência, alguém me dizia que nem tenho cara de quem ouve música.
O cheiro da música é mais intenso que a maresia de Copacabana e mais suave que o da chuva no pátio de casa em Camaquã. O cheiro da música tem vida e caminha sempre na contramão do previsível. Daí que não tenho nem cara de quem ouve música.
A música tem cara de quem senta pra fumar sozinho, tem cara de quem pinta o cabelo de rosa, tem cara de quem toma vinho acompanhado, tem cara de quem sai de casa de camiseta e tênis, tem cara de quem chega com batom vermelho e a unha feita, tem cara de quem não tem cara e acha que tem.
Eu tenho tantas caras e tenho uma que é todas, menos a de quem ouve música. Porque a minha cara é de quem cheira a música, e quem é que mistura olfato com audição ? Não é quem, mas o que. Nós somos da mesma matéria prima, nós e a música.
Daí que ando imersa em seu aroma, todos os dias. Numa viagem infinita, enibriante e viva. Mas de quem não alcança sequer uma nota musical. Ainda assim sigo o  cheiro, no cheiro, de cheiro e pelo cheiro. Um cheiro que não se pode sentir, se não se entende que toda a energia em desequilíbrio, se desencontra.
Quando ouço, sinto o cheiro do infinito. E o infinito com companhia é tudo o que transforma o cosmo. O cosmo é tudo o que é movido pela fé e se toda a fé tem a ver com o medo, tens que aprender a não temer a misturança.
Somos as pequenas partículas que podem significar sozinhas, mas unidas somos o infinito. Ele, o infinito. De cheiro e de som.
Quando percebemos o estrondo dessa arquitetura sutil, sentimos os amores infindos. São os amores assim, construídos como o véu da noite, sempre depende de onde estamos vendo as estrelas. Podemos amarrar as sensações e perceber que o mais belo está em agarrar-nos ao que se ama. Insistir, e ensaiar a vida com o propósito da teimosia do acaso. Dos amores que temos, não soltemos.
Façamos da rima a sintonia dos pontos de luz que somos, juntos.
Avistamos, à vista, em cada som que cheira, um para-raio em telhado de sólidos. Construído apenas, sobre paredes de essência híbrida.

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