segunda-feira, 19 de julho de 2021

Nós e o laço de vida

O caminho é feito de inacabados. O próprio texto é sempre inacabado. Toda a escrita ensaia outra e a existência é tecida em finas linhas da fumaça do teu cigarro.

O espaço vazio era da redoma emprestada, agora ocupas de novo o universo e com itens menos delicados. Um soco inglês esquecido e a decoração mais bonita de todas na única janela pra fora de casa, assim descansas agora.

Nessa tua morada eu escuto o silêncio cancioneiro outra vez embalado numa respiração de quem regenera. Sete vidas, setenta e sete delas e quantas mais quiser. Entre câimbras e piso quente, um cheiro insistindo em caçar meu sono. Cheiro teu que ilumina, clareia a noite e faz ser de novo dia. 

Cheiro de cigarro emprestado, de amores infindos e de satisfação na companhia. Pequena, tão leve, dizes. Levitar de sossego, e de levitar flutua. Esquece que não tem asas, então as desenha e cria a solidez que busca. Leve não será leviana, só sabe levar pra fora o que já não serve.

Entrelaçados os fios, as luzes da noite, os dois só(is) de novo e de vez em quando, inacabados. Vivos, em laço, enlaçados apenas no querer, avessos ao nó. Nós, inacabados. Nem par mínimo nem máximo, um par de luvas nos caberia bem. 

Enquanto não laçamos o tempo a fim de pará-lo, o destino enlaça-nos e sozinho desata o excesso. Saturno carranca, entristece-lhe aqueles que brincam de moira. Destina - sempre a seu tempo - a quem ata, apenas o pó e a lembrança do inacabado.

Desatados, o destino desata, destina e acomoda. Desordem, sobrevives ao caos.

Encosta, descansa, respira

Nós.

Só o pronome dessa vez. Tudo segue leve, não leviano. E na janela, o dia clareia mais cedo em toda vez do eu contigo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário