segunda-feira, 25 de maio de 2020

Espelho atemporal (poesia do que não se vê)

A poesia está no ser e naquilo que o ser reflete ter sido. Do sujeito que deixa parte de si, um achado virou poesia em duas linguagens. Dualidade pouca é bobagem muita, mas disso nem sempre se está atento pra enxergar. Do que foi perdido ou ficou abandonado, quem foi o senil desatento, genioso e sem rosto, que deixou matéria-prima tão rica no cenário do sol entardecido daquela quinta de primavera embalsamada. Deixou à mercê doutros desatentos, que não sabiam sequer fazer do isqueiro uma arma de sutileza emprestada. Tudo vira representação do real quando a realidade se faz nítida e pede pra ser flagrada.
O dono do cigarro e do isqueiro talvez os esteja buscando, como buscava saciar-se no vício quando montou seu kit de sobrevivência pra estrada. Sobrevivência ou fuga, tecidas como sinônimos no rumo dos andarilhos, aqueles que vestem a túnica e se embriagam no que é fugaz e inevitável: a vida.
Quem pensa na fuga é filho do descaminho, diria o poeta se aqui estivesse, mas ele foi pra longe buscar a realidade noutras sombras.
Pude ver a fumaça viva naquela bituca mórbida e apagada. Podia ver o dono com ele entre os dedos. Distraído, peguei-o meditando nas vaidosas formas daquela efêmera e autêntica tragada. Ficamos ali mais que alguns minutos, assistindo ao espetáculo da luz refletida naquela posse de alguém que estaria, quiçá, liberto.
Teria o dono perdido seus pertences a um propósito, encontrar-se - pensei um tanto contemplativa. Ficamos, então, emaranhados nas incógnitas que só seriam desvendadas se acendêssemos o cigarro, mas não o fizemos. Pra isso, precisaríamos da digníssima vaidade de sermos os soberanos donos ou, seus apossados. Nosso caminho, porém, era outro. Quem sabe pro entardecido sol de uma quinta de inverno, num tempo paralelo a este, apresentado a mim numa imagem disforme e encomendada por um ideal de muitos: o dono está na companhia de seu cigarro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário