És de poesia e de abismo, eis que te fala o disco riscado. Não és de
enganos, nunca foste. És das narrativas que são tuas, que são autênticas
e que são sempre donas do riso que é meu. Vais de encontros, porque és
vivo. O que há de verdadeiro em ti, nasce da tua alma andarilha e da tua
essência gaiata. Não vais por comando, és de improváveis.
Quantos sons ficaram soltos antes de ti, disso não sabes, nem queres
saber, nem o precisa. Importa o que vem adiante, importa quem tens
agora, quem dos teus caminha contigo e as contrações que transformam
as dores em risos.
Harmoniza as borboletas do estômago, faz a tua sinfonia porque são elas
quem seguem contigo. Não vais ser clichê, confio. Teus aliados são
cancioneiros, astutos, guerreiros.
Sestroso és tu, mais ninguém. De mimo e de cheiro, és um portal pro
cosmos. Sei das as águas profundas, ora turvas, ora cristalinas, que tens
nas tuas mãos. Sei dos descaminhos, das encruzilhadas, das noites
ressacadas. Sei quem estás, de onde vens e pra onde não queres ir. Sei
porque sou de salto livre, não porque seja vidente. Sossego nas vibrações
de descanso que vem do teu abraço, anseio pelos tempos já idos e pelos
cheiros permanentes. Corro presa e me agarro aos cabelos das árvores
que falam do lugar de felicidade que existe aqui. São recados que falam
sobre as tuas luzes, as tuas armadilhas e a tua transparência. Creio em
tudo que é duvidoso, duvido de tudo que é certo. Nada dizes porque de ti
já escutei de tudo, em alto e bom silêncio cancioneiro que chega na
minha janela todo o segundo dia de cada mês. Sei que és de infinitos, de
óbvios, de atípicos e de faísca de incêndio. Derreto, porque sou gelo
firme. Se redobro a aspereza, desmancho sempre em maravilha toda vez
que vejo o abrigo que mora na casca de bergamota temporona que tanto
gostas de exibir.
Sempre que víris no espelho os olhos de jabuticaba ou aqueles que são da
cor de chuchu, lembra-te que a beleza do mundo nasceu de ti e vive
contigo em todas as casas para onde vão os teus pés.
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