Pensar em memória é um teletransporte imediato às lembranças, histórias e estórias já idas, que comumente inspiram a derradeira vontade de reviver o momento. Nesse embalo trago ao presente as memórias de como conheci Pessoa e as 136 pessoas de si. Dos que lhe habitavam, apaixonei-me pelo que levava flores à guria da loja de cigarros por volta de onze da manhã e depois das cinco, passava sem fitar-lhe sequer de relance os olhos. Enquanto ela, intimamente desajeitada, debruçáva-se à janela pensando confusa no encontro caloroso de outrora, teimando no amor inquieto do amante que era duplo, que era uno e que era tantos.
Entretanto, nada de confuso há no pertencer de si que habita mais de um. Ampliar o discurso para a fala de outros que ainda são um só, na intemperança de enxergar o vazio sempre no reflexo da ausência.
Ser tantos e não ser nenhum, em qual daqueles que lhe pertenciam, mais pertencia o hospedeiro físico, questiono. Por que não somos capazes de pensar na impresença de algo ou apenas na presença do vazio quando tomamos conhecimento do espelho da alma?
Não se fala aqui de coração, fala-se da alegria de estar e de ser, de entender os entrelugares e de pensar na beleza autêntica que mora na imensidão de uma memória mansa que não é mais conturbada pela nostalgia.
Fala-se de estar onde estás, de seres e pertenceres ao lugar e de guardar contigo as memórias, para que elas sejam o teu refúgio de aconchego e não uma sepultura criada por desejos de partidas frustradas.
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