Quando o tempo parou entrei em desesperada sintonia com os ponteiros. Questionei a que vinham, por que vinham e quantos de nós tinham por seus.
Senhora de areia - disse o menor - não vais ter de mim senão aquilo que mereceres, a resposta que queres é de ironia. Se não sabes onde estás e não compreende quem és aí, não cabe a mim responder-lhe em harmonia.
O segundo, mais perceptivo que genioso, olhou-me atravessado, apontou para o quinze e disse: Não pergunta aquilo que sabes, insultas assim a nossa soberania. Vens da areia deste que chamas Tempo, deste que invocas corriqueiramente, esquecendo sua real dimensão. Tens o próprio simbolizado em ti, és uma de suas amantes e não encontrarás resposta noutro lugar que não aí.
Em verdade lhe digo, acende um cigarro, olha a fumaça, és herdeira de Pessoa. Sente a tua raiz que sai das profundezas indomáveis de Gaia.
Após a minha partida, vai e não peques mais, atenta o teu olhar para o que precisas e a resposta virá numa só palavra.
Retirou-se majestoso o ponteiro maior. Não sem antes lembrar-me que não ficaria no quinze pra que eu não acomoda-se os olhos em si, distraindo-me do necessário. Ressaltou também a importância de não ocultar na memória a sua existência, pra não despender ao descaminho das horas ao longo dos dias.
Ainda estarrecida pela conversa, sentei-me. Abri O Livro do Desassossego e invoquei Bernardo Soares. Depois de alguns minutos olhando a fumaça, eis que tudo estava lúcido.
O efêmero estava ali novamente.
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