Quando a flecha de Zenão foi lançada o desejo era indissoluto.
Nao se quer aquilo que se tem, nem aquilo que se sabe que terá. O desejo está direcionado pela utopia e pela abstração.
Soubesse disso, o rapaz da utopia não teria pensado em Tomas Morus para o primeiro presente a sua lady. Mas como a flecha, a palavra está lá. A dedicatória é sublime, carrega o peso de cinquenta ensaios de escrita, de horas dedicadas a fazer arroz doce e falar de literatura.
Nao era essa memória que a essência da escrita precisava, mas foi a conveniência do tempo que a trouxe.
O desejo é todo tecido por certezas flutuantes, daí a ideia do mesmo autor de que o segundo presente seria não a flor, mas um pé de jasmim.
A permanência da planta lhe faria presente ainda que não estivesse ali, ele venceria a barreira da efemeridade do tempo e ainda se faria presente para ser lembrado. A ideia era boa, não fosse o desejo que lhe sabotou com um tapa de luva e uma rosa branca certeira.
A fase do encanto passou, subverteu o desejo em frustração. Disso nasceu primeiro ódio, repulsa e depois desejo de novo. Ele não tinha saída senão tentar, sabia disso, agiu conforme a intensidade de seu querer desajeitado.
Nova frustração e acúmulo de desejo. Seu alvo já estava desenraizada, o desejo não a consumia mais, ela estava apaixonada por si e a permanência vazia, dissoluta.
Ainda que cinquenta mil passos sejam dados, o desejo dele deve estar por lá guardado, recalcado e sozinho, ansiando o momento de sair pelo ato falho e virar sintonia.
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